Assim, como quem não quer a coisa - ou a quer, mas não a espera - investigadores britânicos e norte-americanos conseguiram criar uma enzima mutante com capacidade para digerir o plástico das garrafas de água e refrigerantes que utilizamos e, por regra, deitamos fora. A descoberta traz assim uma esperança para a poluição causada por essas embalagens.

As estimativas apontam que por cada minuto que passa, um milhão de garrafas de politereftalato de etileno (PET) são usadas no mundo e apenas 14% são recicladas. O resto acumula-se. Em lixeiras e nos oceanos, de onde acabam por até entrar na cadeia alimentar, dado estar provado que os peixes confundem o plástico com alimentos.

Com o mundo saturado de PET, um material desenvolvido por dois químicos britânicos em 1941, usado em garrafas e embalagens, o avanço agora conseguido pelos cientistas torna-se prometedor no combate à poluição, já que os plásticos tendem a persistir por centenas de anos no meio ambiente.

A descoberta da enzima ocorreu num centro de reciclagem do Japão. Agora, peritos da Universidade de Portsmouth na Grã-Bretanha e do

Laboratório Nacional de Energia Renovável do Departamento de Energia dos Estados Unidos conseguiram decifrar a estrutura detalhada dessa substância orgânica. Com o acrescento de a terem mesmo potenciado.

Conseguimos uma versão melhorada da enzima melhor do que a natural", sustentou o britânico John McGeehan, em entrevista à agência noticiosa Reuters.

Adicionados aminoácidos

Segundo o estudo publicado no jornal da National Academy of Sciences britânica, os cientistas adicionaram alguns aminoácidos que levaram a que enzima trabalhe mais depressa, na sua função de digerir o plástico.

É realmente prometedor, porque significa que há potencial para otimizar ainda mais a enzima", salienta John McGeehan, que admite desde já a "possibilidade de, nos próximos anos, criar um processo industrialmente viável para transformar o PET, e potencialmente outros plásticos, para que possam ser reciclados de forma sustentável".

A esperança de alcançar "a meta da sustentabilidade com polímeros recicláveis" é partilhada por outros peritos, caso do químico Oliver Jones, do Royal Melbourne Institute of Technology, na Austrália.

As enzimas são não-tóxicas, biodegradáveis ​​e podem ser produzidas em grandes quantidades por micro-organismos. Há um forte potencial na tecnologia das enzimas para combater o crescente problema de resíduos da sociedade, destruindo alguns dos plásticos mais usados​​", salienta Oliver Jones, falando à Reuters.

Fundo "português"

A procura de substâncias capazes de combater a proliferação de plásticos levou, no ano passado, a uma descoberta igualmente prometedora por parte de investigadores da Universidade de Aveiro, a saber, um fungo que vive nos oceanos e destrói o plástico.

O fungo foi nomeado de "Zalerion maritimum", sabe-se que habita nas costas portuguesa e espanhola, tal como ao largo da Austrália e da Malásia, e é também responsável pela degradação da madeira.

Uma equipa de investigadores da Universidade de Aveiro simulou então, em laboratório, uma situação de mar poluído com plástico, igual ao que é usado nos sacos de compras. Constatou que, nesse ambiente, a população de fungos aumentava à medida que a quantidade de plástico diminuía.