Uma mulher belga foi a primeira pessoa no mundo a dar à luz depois de um transplante de tecido dos ovários, conservado em criogenia desde a infância. O caso vai ser descrito esta quarta-feira na revista Human Reproduction.

Com apenas cinco anos tinha-lhe sido diagnosticada uma anemia falciforme, uma grave doença do sangue. O transplante de medula óssea parecia ser a solução. Aos 13 anos teve de se submeter a quimioterapia, um tratamento que poderia destruir-lhe os ovários e a possibilidade de ter filhos.

Na altura, a jovem ainda não tinha tido a primeira menstruação, mas os médicos detetaram que o processo de puberdade já estava em curso e decidiram retirar-lhe o ovário direito, mesmo não tendo a certeza que este pudesse originar ovócitos funcionais. O tecido foi guardado e congelado para que pudesse ser transplantado mais tarde.

Aos 15 anos, o ovário esquerdo falhou. Sem o transplante, seria impossível ter engravidado.

Dez anos depois, a mulher decidiu que queria ter filhos e a operação foi realizada, para restaurar de novo a fertilidade do tecido. Em apenas 5 meses, a paciente teve a primeira menstruação e, aos 27 anos, engravidou naturalmente, dando à luz uma criança saudável, em novembro.

Os médicos que acompanharam o caso veem o caso como uma esperança para outras mulheres, uma vez que há cada vez mais sobreviventes a doenças do sangue diagnosticadas na infância. O procedimento pode ser aplicado a pacientes que tenham combatido doenças com grande risco destruição dos tecidos ovarianos, como os linfomas, leucemias e sarcomas.

“Contudo, o sucesso do transplante precisa de maior investigação em raparigas que ainda não começaram a puberdade. A nossa paciente já tinha começado o processo, apesar de não ter ainda o período”, afirma Isabelle Demeestere, a médica responsável pelo caso. A especialista alerta também que a cirurgia apenas deve ser aplicada em casos específicos, pois pode ter alguns riscos. Em doentes com cancro, a o transplante pode reintroduzir células malignas no corpo do paciente.

Este é o primeiro caso de transplante do próprio ovário bem-sucedido. O transplante de ovários doados por outras mulheres já foi responsável pelo nascimento de 40 crianças em todo o mundo.