A revista internacional MIT Technology Review divulgou hoje a nomeação, pela primeira vez, de uma cientista portuguesa para a sua lista anual de inovadores com menos de 35 anos, pelo seu trabalho no campo da biotecnologia e medicina.

«É o reconhecimento pelo trabalho. Claro que estou muito satisfeita por receber o prémio. Acho que o mais importante não é o prémio, mas a tecnologia em si, o valor e o potencial que tem para melhorar qualidade de vida de muitos pacientes pelo mundo. É para isso que, realmente, eu trabalho», disse à Lusa, a partir de Paris, a investigadora Maria José Pereira, de 28 anos.

Há mais de 10 anos que a revista MIT Technology Review, do Massachusetts Institute of Technology, reconhece as pessoas inovadoras que desenvolvem tecnologias com capacidade de transformar o mundo e, pela primeira vez, nomeia uma cientista portuguesa.

Alguns dos nomes já nomeados nesta lista foram Larry Page e Sergey Brin, cofundadores do motor de busca Google, e Mark Zuckerberg, cofundador da rede social Facebook.

Licenciada em Ciências Farmacêuticas pela Universidade de Coimbra, Maria José Pereira contribuiu, nos Estados Unidos, para o desenvolvimento de um novo adesivo que funciona como uma cola e que permite reparar mais facilmente defeitos cardiovasculares que afetam seis bebés em cada mil nascimentos.

Este adesivo formado por um novo biomaterial irá simplificar consideravelmente o processo de reparação e reduzir a necessidade duma intervenção cirúrgica invasiva nos primeiros tempos de vida.

Ao contrário dos outros materiais, a tecnologia deste material permite-lhe aderir fortemente ao tecido e resistir à constante pressão exercida num órgão, como o coração, em presença de sangue.

«O meu doutoramento foi pelo MIT Portugal e o programa dá-nos a oportunidade de trabalhar com investigadores no estrangeiro. Daí, na altura, ter ido para os Estados Unidos, onde conheci outros investigadores e surgiu a ideia deste projeto«, sublinhou a cientista portuguesa.

O Programa MIT Portugal é uma colaboração, desde 2006, entre universidades, centros de investigação portugueses, empresas e o MIT, que procura promover o investimento em ciência, tecnologia e educação superior como dinamizador do desenvolvimento económico e social em Portugal.

«Estava integrada numa equipa no Brigham & Women's Hospital, que faz parte da divisão de ciências para a saúde e tecnologia da Harvard-MIT, e colaborei também com investigadores do Children¿s Hospital em Boston», referiu Maria José Pereira.

«Foi basicamente neste ecossistema em que havia pessoas muito boas tanto a nível da engenharia, como na parte clínica, que surgiu toda a ideia deste projeto. Foi uma equipa muito multidisciplinar e o ambiente muito rico de Boston que proporcionou este projeto», acrescentou.

Atualmente, Maria José Pereira coordena a área de tecnologias de adesão na start up Gecko Biomedical, localizada em Paris.

«Durante o meu doutoramento, foi submetida uma patente (para esta tecnologia por pesquisadores do MIT) e há várias tecnologias que estão relacionadas com este trabalho que foram licenciadas à Gecko Biomedical, que é uma start up que está a trabalhar nesta tecnologia e outras plataformas para a adesão, sempre na área médica», referiu.

A empresa, fundada em 2013, conseguiu o financiamento de oito milhões de euros e espera que esta tecnologia esteja disponível no mercado entre dois a três anos, segundo a MIT Portugal.

«Claro que (a nomeação) demonstra que somos (portugueses) capazes de fazer muito. A minha educação toda foi em Portugal, tive esta experiência nos Estados Unidos e ter conseguido obter este prémio é bastante importante», sublinhou Maria José Pereira.

Os nomeados deste ano serão incluídos na edição impressa da revista de setembro/outubro, que será distribuída a 02 de setembro.