A Europa vai estrear-se na exploração da superfície e do subsolo de Marte, e procurar sinais de vida no planeta, com um veículo robotizado, que promete ser mais ágil do que o seu 'primo' norte-americano, o 'Curiosity'.

O robô de seis rodas, que ainda não tem nome, deverá ser lançado para o espaço, em maio de 2018, num foguetão russo Proton-M, numa missão que envolve a parceria das agências espaciais europeia (ESA) e russa (Roscosmos).

A chegada do veículo ao deserto marciano, onde a temperatura média ronda os -55ºC, está prevista para janeiro de 2019, em Oxia Planum, uma região argilosa potencialmente propícia para os cientistas encontrarem sinais de vida microbiana passada, que tenham escapado à forte radiação solar, da qual o planeta não se pode proteger, uma vez que não tem campo magnético, ao contrário da Terra.

Segundo o investigador português Nuno Silva, consultor da Airbus Defence and Space, onde trabalha, para o programa europeu e russo de exploração robótica de Marte, ExoMars, o veículo robotizado europeu "é mais autónomo e inteligente" do que o robô 'Curiosity', que aterrou, em 2012, na cratera marciana de Gale, permitindo recolher informação geológica do planeta.

Formado em engenharia aeroespacial, pelo Instituto Superior Técnico, em Lisboa, Nuno Silva, que acompanhou desde o início a conceção e os testes do robô, na empresa, no Reino Unido, disse à Lusa que o piloto automático do veículo dá-lhe autossuficiência para "seguir o seu caminho e contornar obstáculos".

O robô pesa menos 600 quilos do que o 'Curiosity', lançado pela agência espacial norte-americana NASA, o que o torna "mais ágil" para aceder, em segurança, a sítios mais difíceis. O 'rover' pode andar autonomamente até cem metros por dia.

A tecnologia com que vai equipado, e que inclui câmaras de localização e navegação, permite "saber onde é que está em Marte a todos os segundos", assinalou Nuno Silva.

Na Terra, os técnicos poderão fazer o planeamento diário do seu percurso, de forma mais rápida e precisa, evitando perdas de tempo e energia desnecessárias para o 'rover' chegar aos pontos exatos de interesse científico.

A energia do robô é alimentada por painéis solares, que, durante o dia, são usados também para carregar uma bateria que suporta o funcionamento do veículo, em alturas de maior consumo energético.

O 'rover', de acordo com Nuno Silva, vai "percorrer com precisão o solo marciano", que "está coberto basicamente de areia", fazer uma imagem em 3D do terreno, de três em três metros, podendo "corrigir trajetórias para alcançar os seus objetivos".

Na sua estrutura, o robô tem uma broca para perfurar o solo, até dois metros de profundidade, e recolher amostras, que serão analisadas por um laboratório incorporado no veículo.

Todos os dados recolhidos pelo 'rover', incluindo possíveis marcadores orgânicos de vida, microbiana, passada, ou mesmo presente, em Marte, serão transmitidos, uma a duas vezes por dia, para Terra, via satélite.

O mesmo satélite "despejará as instruções" indicadas pelos operadores técnicos, na Terra, para o robô.

Para Nuno Silva, o maior desafio desta missão, a segunda do programa ExoMars, é a retirada do robô de uma plataforma de aterragem e a manutenção, em perfeitas condições de funcionamento, dos seus componentes a temperaturas muito quentes, durante o dia, e muito frias, de noite.

À semelhança da primeira missão ExoMars, que é lançada na segunda-feira, a segunda reúne o 'saber-fazer' de empresas portuguesas. A Deimos Portugal ficou responsável pela navegação em segurança e pela boa entrada na atmosfera marciana do módulo de descida e aterragem, que tem no seu interior instrumentos para estudar o ambiente em redor, em termos geológicos e climáticos.

A Active Space Technologies fabricou as estruturas do módulo, o protótipo da sua bateria e as estruturas da antena de comunicação com a Terra, tendo estado envolvida nos testes de locomoção do robô e dos painéis solares da plataforma de aterragem.

Apesar de ser inóspito, Marte é considerado o planeta do Sistema Solar mais parecido com a Terra. Estruturas geológicas demonstram que, há muito tempo, água líquida, elemento fundamental para a vida, abundava na superfície do 'planeta vermelho'.

Em setembro, a NASA anunciou a existência de água líquida salgada em Marte. Num passado remoto, sustentam cientistas, o planeta teve um oceano maior do que o Ártico.