O aumento da procura global pelo lítio – o chamado “metal do futuro” – foi impulsionado pela utilização nas baterias dos automóveis elétricos. Portugal tem grandes reservas de lítio e a corrida ao metal já começou: só em 2016, deram entrada 30 novos pedidos de prospeção e pesquisa deste metal.

Dos 46 requerimentos para a atividade de prospeção e pesquisa na Direção Geral de Energia e Geologia (DGEG), 30 visam o lítio como substância mineral principal, envolvendo um investimento de 3,8 milhões de euros para o período inicial de contrato - dois a três anos - e uma área total de 2.500 quilómetros quadrados.

Esta corrida levou o Governo a avançar com uma "alteração da forma como são dadas as concessões", como revelou recentemente o ministro da Economia, o que passará pela abertura de concurso público, até porque existem atualmente vários pedidos para as mesmas áreas de concessão.

De acordo com o relatório do grupo de trabalho 'lítio' - constituído há um ano como resposta a este crescimento de pedidos - a viabilidade deste metal parece ser inequívoca, devido às suas aplicações de elevada tecnologia, nomeadamente espaciais, eletrónicas e químicas.

Em Portugal, a utilização de minérios de lítio tem estado confinada à indústria de cerâmica, sendo considerado mais-valia, uma vez que baixa o ponto de fusão, permitindo assim baixar o consumo energético das empresas. Mas "a partir deste momento faz sentido desenvolver uma reflexão sobre os conteúdos em lítio dos vários minerais, bem como dos respetivos teores médios nos minérios exploráveis, isto é, os teores médios de lítio nos jazigos que tornam a exploração economicamente viável".

Nos últimos dois anos assistiu-se a uma subida acentuada dos preços do lítio no mercado internacional, existindo estimativas de, a breve prazo, se verificar um exponencial aumento de automóveis elétricos, o que faz prever uma elevada procura de lítio a nível mundial, nota o grupo de trabalho, no relatório concluído em março e que desde então está na posse do Governo.

É, assim, expectável que a prospeção e pesquisa deste recurso mineral, bem como a sua exploração e valorização venham a merecer um acentuado incremento, nomeadamente em países com recursos minerais de lítio geologicamente reconhecidos, como é o caso de Portugal", acrescenta.

O grupo de trabalho não tem dúvidas quanto ao potencial de vários minerais de lítio e que estes são "tecnologicamente valorizáveis", mas alerta para as debilidades nos recursos humanos e financeiros das instituições governamentais relacionadas com o setor mineiro, a desigualdade no grau de conhecimento sobre as várias jazidas e ainda um processo burocrático demasiado longo na decisão da atribuição de direitos.

A extração mundial de lítio é feita há várias décadas sobretudo a partir de salmouras (essencialmente, lagos salgados), devido ao menor custo operacional, mas a procura crescente tem levado ao lançamento de projetos para a extração a partir de minerais de rocha, procurando soluções inovadoras que permitam reduzir os custos de produção.

O grupo de trabalho defende - além da avaliação dos recursos minerais litiníferos do país - a implementação de uma unidade experimental minero-metalúrgica com o objetivo de desenvolver conhecimento e testar tecnologias para toda a cadeia de valorização destes recursos.

O lítio e os seus componentes são utilizados pela indústria de cerâmica e vidro, lubrificantes industriais, aplicações médicas, siderurgia de alumínio e as baterias. De acordo com o Deutsche Bank, os principais mercados de destino para baterias em 2015 foram veículos elétricos (25%), telemóveis e 'smartphones' (19%), computadores portáteis (16%), antecipando que os mercados tradicionais do lítio cresçam em média 3,6% ao ano nos próximos dez anos.

A DGEG definiu 11 campos de pesquisa, em função das expectativas das empresas requerentes de direitos de prospeção: Agra, Sepeda - Barroso - Alvão, Covas do Barroso-Barroso-Alvão, Murça, Almendra, Penedono, Amarante - Seixoso-Vieiros, Massueime, Gonçalo-Guarda-Mangualde, Segura e Portalegre.

Esta corrida ao lítio em Portugal já chegou aos tribunais, na sequência do litígio entre a empresa nacional LusoRecursos, que detém a licença de prospeção - já atribuída -, e a australiana Novo Lítio (antes designada Dakota Minerals), que tem realizado os trabalhos de pesquisa em Sepeda, Montalegre, distrito de Vila Real.

 

Ambientalistas preocupados

Desde a exploração até ao fim de vida como elemento de baterias elétricas, o lítio suscita algumas preocupações a ambientalistas ouvidos pela Lusa, que defendem que não se deve só contar com este metal e pedem atenção aos impactos ambientais.

"O lítio é importante para acabar com a dependência do petróleo nos transportes mas esperamos que haja muita energia solar para carregar as baterias de lítio, porque agora, a maior parte da eletricidade é produzida pelas centrais a carvão e assim não adianta", apontou João Branco, da Quercus.

O responsável da Zero defende ainda que é preciso "diversificar e descobrir alternativas", porque se se aposta só neste metal, "vão ser precisas milhares de toneladas à escala global", o que poderá tornar o uso do lítio insustentável a longo-prazo.

João Branco sublinhou por sua vez que as reservas de lítio estudadas em Portugal estão na rocha, ao contrário de outros países, em que se extrai um sal que contém aquele elemento e que o impacto da mineração depende da concentração.

Se for pouco concentrado, terá que ser extraída e escavada mais rocha, o que poderá produzir uma quantidade considerável de escória, sujeitas a processos de lavagem, que produzem muitos poluentes, não necessariamente o lítio.

 

Câmara da Guarda já deu pareceres positivos

A Câmara Municipal da Guarda deu este ano pareceres positivos a três explorações de minerais, incluindo lítio, na zona sul do concelho, considerando o seu presidente que o município é uma referência a nível nacional.

Em março, a pedido do Ministério da Economia, a autarquia deu pareceres para alargamento da atual concessão C-70 "Gonçalo Sul" (na freguesia de Gonçalo), ao pedido de prospeção e pesquisa de depósitos minerais de lítio, volfrâmio, estanho, nióbio e tântalo na zona de Vela oeste e entre Seixo Amarelo e Gonçalo, e ao parecer relativo ao pedido de prospeção e pesquisa de depósitos minerais de quartzo, feldspato e lítio na área da freguesia de Aldeia do Bispo.

 

“A maior reserva da Europa” e a oportunidade para interior

Os habitantes da freguesia de Gonçalo, na Guarda, encaram o projeto de exploração de lítio junto à aldeia de Seixo Amarelo como uma oportunidade de desenvolvimento e de criação de postos de trabalho.

A exploração de lítio será importante para criar postos de trabalho, porque a freguesia [de Gonçalo] está praticamente parada e não tem economia", disse o morador Helder Saraiva, de 41 anos.

"Pode levar desenvolvimento à nossa freguesia, porque qualquer dia não temos ninguém, desaparece tudo, por falta de emprego. Era bom para tudo", disse, apontando que existe atualmente uma exploração de minerais na área da freguesia que já dá emprego a um homem de Gonçalo e a outro da vizinha aldeia de Gaia (Belmonte).

Atualmente, os habitantes de Gonçalo só se apercebem da existência da exploração de minerais "pela passagem dos camiões" com os inertes e pelo facto de os dois trabalhadores da zona almoçarem num restaurante da terra, informou o morador.

Firmino Cairrão, antigo presidente da extinta freguesia de Seixo Amarelo, que foi agregada a Gonçalo, contou à Lusa que a exploração de minérios na zona começou "há mais de 30 anos".

[As empresas exploradoras] fizeram um estudo em que dizem que desde o vale da Vela até Gonçalo há uma reserva de lítio que é a maior da Europa, mas o lítio ainda não está a ser explorado", elucidou.

Segundo o ex-autarca, no local são explorados feldspato e lepidolite e a atividade "não dá benefícios" à terra porque "não há lá trabalhadores daqui [Seixo Amarelo]".

A nossa expectativa é que se faça mesmo a exploração de lítio e que isso viesse trazer benefícios à freguesia, mas se isso vai ser feito ou não, está no segredo dos deuses", disse.

O proprietário do único café de Seixo Amarelo, António Carvalho, de 75 anos, espera que a exploração de lítio leve mais movimento à aldeia porque no presente, com a atual exploração, "o movimento é zero".

"Passa um mês e outro e não passa aqui ninguém [no café]. Nunca vi os trabalhadores, não sei se têm um carro branco ou preto. O que sei dizer é que se apostassem na extração do lítio davam movimento a isto, porque, a continuar assim, daqui a dez anos, não há cá ninguém", referiu.