A cientista da Fundação Champalimaud Marta Moita recebeu 1,4 milhões de euros do Conselho Europeu de Investigação e vai estudar os mecanismos do cérebro para detetar sinais de aviso de perigo e preparar uma reação às ameaças exteriores.

«Uma parte deste trabalho é perceber como o cérebro deteta, por exemplo, o começo do silêncio [do outro, associado ao perigo] e como desencadeia uma resposta de defesa», disse esta quarta-feira à agência Lusa a investigadora.

O projeto vai tentar perceber como são detetadas as respostas de defesa dos outros como um sinal de alarme, dando origem a reações ao perigo.

«De alguma forma, temos de aprender com os nossos comportamentos durante uma ameaça para poder usá-los como sinal de alarme em outros», referiu Marta Moita.

O trabalho agora proposto partiu de um outro já publicado e que se debruçou sobre mecanismos utilizados por ratos para respostas de defesa. Quando não há fuga, uma delas é a imobilização, partindo do princípio de que, assim, os ratos em perigo não são detetados.

A investigadora referiu o exemplo de fenómenos de massa em que um grupo de pessoas está a fugir de alguma coisa e todos, na multidão, começam a fugir.

«Há vários processos que estão por detrás desse tipo de fenómeno, um deles, que estou a estudar, é o facto de uma resposta de defesa de outro ser, em si, um sinal de perigo. Estou a tentar estudar como isso funciona, como é que o nosso cérebro perceciona a resposta de defesa do outro e como isso aciona em nós uma resposta de defesa também», especificou Marta Moita.

A investigação, que vai prologar-se por cinco anos, «abre caminho» para perceber como é que a aprendizagem sobre os comportamentos regula a forma como se responde em situações sociais, na interação com outros.

«Acho que, se calhar, há princípios base que depois podem aplicar-se em outras situações que não em situação de ameaça», avançou a cientista.

Este projeto foca-se num tipo particular de sinal de alarme, pois Marta Moita considerou que já se sabe «bastante» sobre como é que o cérebro aprende a ter medo de qualquer coisa associada a uma ameaça. Alguém que foi assaltado em determinado local, passa a ter medo dessa área e a evitá-la.

Mas, também é possível utilizar informação do ambiente para detetar perigo, como um grito de «cuidado», ou vocalizações, o caso dos animais. «É uma forma de detetar que há perigo sem detetar diretamente a fonte de perigo, pois há um aviso, transmissão social de medo», referiu a investigadora.

«Sabemos muito menos sobre os mecanismos neurais que estão por detrás da perceção desse tipo de sinais e como é que, uma vez percecionados, desencadeam uma resposta de medo, uma resposta de defesa», especificou.

O grupo liderado por Marta Moita tem experiência no estudo da transmissão de medo em ratos, mas, para o novo projeto, irá recorrer a um outro modelo animal, a Drosophila, uma mosca.