A Associação de Bolseiros de Investigação Científica (ABIC) apresentou a «Carta Aberta em Defesa da Ciência em Portugal», contra a precariedade dos investigadores e pelo investimento na ciência, já subscrita por personalidades como Sobrinho Simões ou Carlos Fiolhais.

A carta aberta está desde hoje aberta à subscrição de toda a comunidade científica na internet, através do endereço http://cartaabertaciencia.wordpress.com/about/, e insere-se numa campanha em que a ABIC pretende recolher «contributos para as questões particulares que se colocam à ciência», com o objetivo de influenciar a política delineada antes da discussão do Orçamento do Estado para 2015.

No final da campanha a carta será entregue ao Ministério da Educação e Ciência.

«Houve um investimento em ciência nos últimos anos ¿ com base na precariedade dos bolseiros, é certo -, mas que está a ser deitado à rua. Está a ser arrasado numa lógica de que não interessa investir em determinadas áreas, como as ciências sociais e humanas. Estamos a perder massa crítica para o desenvolvimento social e económico do país e a desperdiçar o investimento em recursos humanos e materiais», disse o vice-presidente da ABIC, Tiago Lapa, na conferência de imprensa que hoje decorreu frente à reitoria da Universidade de Lisboa.

Os bolseiros estão preocupados com as consequências para o financiamento de centros de investigação, programas doutorais e bolsas individuais decorrentes do processo de avaliação que está a decorrer, e que já excluiu da 2.ª fase da avaliação quase metade dos centros envolvidos.

Das 322 unidades avaliadas, 52% passaram à segunda fase e outras 26% obtiveram a classificação de Bom, tendo assegurado um financiamento base, avançou a Fundação para a Ciência e Tecnologia.

«As Unidades que passaram à 2.ª fase, e que podem ver o seu financiamento base acrescido de financiamento estratégico, comportam dois terços dos investigadores que integram as Unidades em avaliação», acrescentava o documento.

Para André Janeco, presidente da ABIC, as consequências desta avaliação nos bolseiros e centros de investigação «não são ainda claras», mas haverá bolsas que não serão atribuídas ou renovadas, menos financiamento para material, e outras consequências que impedem o normal funcionamento dos centros de investigação.

Os resultados da avaliação vão ter consequências para o financiamento de bolsas e projetos de investigação entre 2015 e 2020, explicou André Janeco, uma vez que o processo de avaliação decorre até janeiro do próximo ano.

«Por causa de um processo de avaliação vamos deixar morrer centros?», questionou Tiago Lapa.

Quanto mais alta a avaliação, maior o financiamento obtido através da FCT. Com financiamento mais reduzido, os centros perdem «a sua capacidade de atratividade de investigadores», sublinhou Tiago Lapa.

A atribuição de bolsas individuais teve uma forte redução no último ano, sendo, de alguma forma compensada através de bolsas integradas nos programas doutorais, mas, frisaram os investigadores, não «há um efeito de substituição direta», o que deixa muita gente de fora, até porque há centros e áreas de investigação nos quais não existe qualquer programa doutoral.

A FCT reafirmou na passada semana a sua «total confiança» no processo de avaliação das unidades de investigação e diz ter «total transparência, rigor e isenção», mas várias universidades e centros de investigação anunciaram já que vão contestar a avaliação recebida, como escreve a Lusa.