Investigadores das universidades de Évora e Nova de Lisboa desenvolveram um modelo de apoio à conservação de espécies em cenários de alterações climáticas, que propõe uma forma inovadora e dinâmica de gerir o solo e as ações conservacionistas.

O modelo, publicado na mais recente revista Journal of Applied Ecology, alia técnicas matemáticas de otimização com conceitos de ecologia fundamental, revelou hoje à agência Lusa a Universidade de Évora (UÉ).

O trabalho envolve o polo do Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos (CIBIO) da UÉ e o Departamento de Matemática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.

Perante alterações climáticas, «a decisão sobre que áreas conservar é um problema complexo». As espécies respondem com «uma mudança nas áreas de distribuição geográfica», para «seguirem os padrões climáticos a que estão adaptadas», disse a UÉ.

Por isso, as atuais áreas protegidas que acolhem espécies com interesse conservacionista «poderão deixar de as abrigar no futuro».

«Os orçamentos atribuídos às ações de conservação são limitados e a competição por espaço é cada vez maior», pelo que há que «questionar o interesse em manter áreas que se preveem de reduzido interesse conservacionista».

Para garantir a conservação a longo prazo é preciso «considerar que as áreas são dinâmicas e que, caso deixem de ter valor conservacionista, possam ser libertadas», explicou a UÉ.

Diogo Alagador, investigador do CIBIO e responsável pelo projeto, sugeriu que as áreas a libertar possam «ser vendidas ou arrendadas» e que os recursos financeiros daí decorrentes sejam «reencaminhados para ações de conservação em áreas de maior relevância para a proteção das espécies».

Os orçamentos serão, desta forma, «geridos de forma otimizada e a competição com outras atividades socioeconómicas atenuada».

Apesar de a abordagem não ser totalmente inovadora, o estudo agora publicado estende estes princípios a cenários futuros de alterações climáticas.

Além disso, acrescentou a UÉ, «tem como principal contributo o desenvolvimento de ferramentas matemáticas» para «apoiar a identificação de áreas de interesse conservacionista ao longo do tempo».

«O modelo utiliza informação referente à evolução da adequabilidade climática no futuro próximo e a capacidade das espécies para colonizarem áreas climaticamente adequadas na obtenção de um índice de persistência» dessa biodiversidade, explicaram os autores.

Esta informação, integrada com dados socioeconómicos e custos associados à conservação, acrescentaram, «é encaminhada para um módulo matemático» que identifica «as áreas que maximizam a persistência das espécies num horizonte temporal definido».

O modelo não é aplicável universalmente, devido às incertezas que incorpora, reconheceram os investigadores, frisando que tal não impede que possa ser utilizado, desde que as decisões de conservação «sejam continuamente revistas».