Quando, há oito meses, Ana Freire se deparou com um perfil falso do Facebook, em tudo semelhante ao seu, desvalorizou. Pediu aos amigos que denunciassem e seguiu em frente. No final do ano passado, a situação tomou proporções muito maiores e Ana viu a vida virada do avesso.

Olhei para o meu Instagram e tinha muitas mensagens. Quando vou abrir, tinha mensagens de pessoas conhecidas e outras de pessoas não conhecidas, a perguntar se era o meu Instagram, porque andavam a receber mensagens desse perfil. Eram as minhas fotos, com tudo igual a mim. Só mudava uma letra do nome. (…) Alguém estava a fazer passar-se por mim, a enviar mensagens a um certo tipo de pessoas, nomeadamente homens, a tentar marcar encontros e a enviar vídeos de cariz sexual. Isso alarmou-me bastante. Contactei o meu advogado e ele mandou-me ir fazer uma denúncia na polícia.”

Ana Freire contou a história no programa SOS24, da TVI, no dia 23 de janeiro. A empresária, que também está a estudar Direito, lamenta que tenha de se sentir envergonhada por algo que não fez.

Está a prejudicar-me e pode vir a prejudicar-me mais, em termos profissionais e em termos pessoais. Fiquei com receio de amigos saberem e, por vergonha, não me virem alertar. (…) Eu não tenho vergonha de nada do que faço, porque não faço nada de mal. Mas a verdade é que uma pessoa se sente envergonhada. Entro em qualquer lado e acabo por me sentir receosa se alguém sabe de alguma coisa, se alguém recebeu alguma coisa, que imagem é que as pessoas têm de mim… Vão ter uma imagem que não corresponde à realidade. Não corresponde à pessoa que eu sou.”

Mais crime e mais sofisticado

O caso de Ana é apenas um em muitos. Todos os dias, a criminalidade informática cresce a olhos vistos. De acordo com o último Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), com dados relativos a 2016 e divulgado em março do ano passado, há “um aumento generalizado” deste tipo de crimes, “destacando-se o crime de sabotagem informática, dano relativo a dados ou programas informáticos e falsidade informática”.

Os números desse “aumento generalizado” são alarmantes: relativamente ao relatório de 2015, o crime de sabotagem informática aumentou 140%, o de dano aumentou 121% e o de falsidade informática registou uma subida de 58%. O RASI de 2016 destaca ainda um aumento dos crimes de pornografia de menores na ordem dos 36%.

No que diz respeito aos cyberataques, a motivação de base para a maior parte dos crimes cometidos continua a ser económica. As autoridades repetem os alertas para esquemas como o da “carta da Nigéria” ou o da “lotaria premiada”. Se receber uma mensagem a dizer que alguém lhe quer deixar uma herança ou que ganhou um prémio e que para o receber só tem de transferir um determinado valor, não caia nesse esquema. Estes estratagemas servem para levar a cabo crimes como extorsão ou phishing.

Mas há ainda a chamada motivação hactivista. Neste caso, enquadra-se a atuação de grupos como os Anonymous.

Os números relativos a 2017 ainda não são conhecidos, mas Carlos Cabreiro, responsável da Polícia Judiciária (PJ) pela Unidade do Cibercrime, não tem dúvidas em afirmar que a tendência de crescimento se mantém.

A tendência de crescimento manteve-se no último ano. Assumem particular destaque as situações de roubo de identidade, malware, extorsão, conteúdos pornográficos de menores e meios de pagamento”, destaca Calos Cabreiro, diretor nacional da Unidade de Combate ao Cibercrime da PJ, em entrevista à TVI24.

 

Todo este tipo de criminalidade tem vindo a aumentar, até com a massificação da Internet e das novas tecnologias. (…) As redes sociais passaram a ser um elemento potenciador e estão a servir de meio para outro tipo de crime, até para criminalidade mais grave. Falo nomeadamente da angariação para plataformas terroristas. Portugal não é exceção. A Internet é transnacional e este tipo de crimes também”, destaca o responsável.

E, a par com o aumento do número de crimes, as autoridades deparam-se também com uma crescente sofisticação da atuação dos criminosos. Carlos Cabreiro reconhece que “há uma evolução constante do chamado modus operandi”: “Vai sofrendo sempre atualizações. O próprio meio facilita essa evolução, sobretudo ao nível do encobrimento”.

O perigo à “espreita por cima do ombro”

Paulo Bastos, editor do programa Next ,da TVI24, defende que a sua proteção contra a maioria destes crimes está nas suas mãos. O jornalista, especialista em tecnologia, lembra que “90% do hacking não tem nada a ver com aplicações informáticas”.

São pessoas que estão a olhar por cima do teu ombro quando estás online, como um assaltante que está a olhar por cima do teu ombro quando estás numa caixa multibanco a marcar o código do teu cartão.”

Já o diretor da Unidade de Cibercrime da PJ, Carlos Cabreiro, sublinha que os utilizadores estão mais atentos: “Temos evoluído muito favoravelmente no capítulo da infoexclusão e temos notado que as pessoas têm vindo a munir-se de informações que as ajudam a protegerem-se”.

Mas o responsável da PJ alerta, ainda assim, para “as fragilidades humanas que os criminosos aproveitam para levar a cabo os seus intentos”.

Nunca pensei que uma rede social, que serve para partilhar fotografias, vídeos, coisas divertidas da nossa vida, aquilo que nós queremos mostrar, me fosse causar tantos problemas”, lamenta-se Ana Freire, que apresentou queixa às autoridades e aguarda a evolução do caso, enquanto pede a todos os amigos que denunciem qualquer perfil que apareça em seu nome, mas que não seja o seu.

Entre as fragilidades humanas que alimentam a atividade criminosa, está o facilitismo, a falta de cuidado e de atenção. Paulo Bastos sublinha que temos de olhar para os computadores, para a Internet e para as redes sociais como olhamos para a nossa casa: se a protegemos, se fechamos janelas e portas, sem alarmismos, temos de fazer o mesmo com os nossos computadores e com a Internet.

A questão básica da segurança online tem a ver com o nosso civismo e com a nossa maneira de estar na vida. (…) Os cuidados que temos de ter aqui, não são diferentes dos do mundo real: sente-se mal ali, não entre; sente que está errado, não faça”, alerta o jornalista.

À semelhança do que se faz com a casa, Paulo Bastos aconselha, por exemplo, uma espécie de “limpeza de primavera” aos seus dispositivos eletrónicos e às redes sociais. Ou seja, é importante apagar periodicamente aplicações que já não se usem ou que tenham sido instaladas inadvertidamente. É igualmente importante, periodicamente, varrer as redes sociais e limpá-las de “amigos” que já morreram ou de grupos que já não se seguem ou que mudaram de nome ou de filosofia.

Conselhos práticos

O jornalista da TVI assegura que “não é preciso gastar muito dinheiro em antivírus” para ter o seu computador seguro. A chave básica para a segurança está no sistema operativo que usa: “O Windows já vem com firewalls e antivírus. Isso e a atitude do utilizador é suficiente para se proteger.”

Paulo Bastos elenca algumas atitudes concretas que são a base da segurança online. Afinal, é na prevenção que está o segredo:

  • Não abra mails ou mensagens suspeitos e muito menos anexos que venham nesses emails.
  • Não abra nada enviado por desconhecidos. Se estranhar algo que algum amigo lhe mandou, não hesite em contactar esse amigo a certificar-se que foi mesmo ele que enviou.
  • Utilize passwords pouco óbvias. Fuja da password baseada no seu dia de anos, no nome do seu filho ou do típico “1,2,3,4,5,6”. Um bom truque é utilizar, por exemplo, uma frase completa, com as palavras todas pegadas e algumas codificações de letras. Se tem dificuldade em decorar passwords, socorra-se de um gerador de passwords. É gratuito e só o obriga a decorar uma única password - a desse mesmo gerador.
  • Não instale nada que não conheça ou que lhe suscite dúvidas.
  • Atenção aos documentos que temos guardados. É possível encriptá-los para que não estejam acessíveis a mais ninguém.
  • Não utilize cartões de crédito para pagamentos online. Já tem disponíveis meios como o MBNet ou uma conta de PayPal, que são muito mais seguros.
  • Vigie os seus filhos. As crianças são um público-alvo muito procurado por criminosos, nomeadamente no que toca a crimes de cariz sexual relacionados com menores. Por isso, é fundamental o acompanhamento dos pais.  

Glossário

Mas, quando falamos de criminalidade informática ou criminalidade online, estamos a falar de quê exatamente?

Muitos dos crimes agora praticados com recurso às novas tecnologias são já há muito familiares às autoridades. Burla, extorsão, ameaça, falsificação, sabotagem… são palavras há muito no léxico das polícias. Com a evolução das novas tecnologias e do mundo digital, adquiriram outra dimensão e obrigaram as polícias a estar mais atentas.

Tentamos uma aproximação constante a este tipo de crimes, até como meio de combate. Além disso, quando falamos de criminalidade informática ou crimes com recurso a novas tecnologias, estamos a falar de prova muito ‘fugível’, muito volátil. A própria transnacionalidade deste tipo de crimes é uma dificuldade acrescida”, explica Carlos Cabreiro.

Mas esta realidade trouxe para o nosso dia-a-dia palavras para muitos ainda desconhecidas:

Phishing - Consiste em utilizar métodos tecnológicos que levem o utilizador a revelar dados pessoais e/ou confidenciais. Geralmente, os dados pessoais roubados dizem respeito a informações de contas bancárias, logins de contas online e outras informações confidenciais.

Carding – Crime levado a cabo por pessoas que atuam em grupo ou sozinhas na internet com o intuito de conseguir dados de cartões de créditos para fraudes online.

Ransomware - é um tipo de sftware nocivo que resstringe o acesso ao sistema e cobra um resgate para que o acesso possa ser restabelecido. Caso esse resgate não seja pago, arquivos podem ser perdidos ou divulgados.

APT – Advanced Persistent Threat - expressão usada para se referir a ameaças cibernéticas, nomeadamente à prática de espionagem através da Internet.

Cyberbullying - Este problema associa-se muitas vezes a jovens e adolescentes, uma vez que estes elementos são, de uma forma natural, mais susceptíveis a possíveis interacções com outros pares.

Sexting - O termo sexting resulta das palavras ‘sex ‘ (sexo) e ‘texting’ (envio de SMS) e significa a troca de mensagens eróticas com ou sem fotos via telemóvel, chats ou redes sociais.