Uma equipa de investigadores do Instituto de Medicina Molecular (iMM) Lisboa verificou, em ratinhos, que um subtipo de células do sistema imunitário é eficaz no combate ao cancro, no caso estudado do sangue.

As células em causa são os linfócitos T gama-delta, que expressam à sua superfície, quando ativados por 'sinais fortes' resultantes da sua interação, determinadas moléculas, os 'recetores de morte celular', que, de acordo com a equipa, são úteis para matar o tumor.

Para Bruno Silva-Santos, que lidera a equipa, este subtipo de células T "é particularmente útil" para o desenvolvimento da imunoterapia (tratamento com agentes biológicos, como células) contra o cancro.

Os linfócitos T ou células T são um grupo de glóbulos brancos (leucócitos) responsável pela proteção do organismo contra microrganismos e tumores, sendo produzidos no timo, órgão que está por cima do coração. Os problemas surgem quando o 'exército' destas células tem 'soldados' insuficientes para aniquilar o 'invasor'.

No estudo, publicado esta terça-feira na revista Nature Immunology, os investigadores do iMM identificaram e viram como funcionam os linfócitos T gama-delta em ratinhos.

Posteriormente, noutro estudo, cujos resultados já foram aceites para publicação, a equipa usou, com sucesso, essas mesmas células, extraídas de humanos, para tratar roedores com um tumor no sangue, também de um humano.

Partindo destes resultados, Bruno Silva-Santos pretende avançar, dentro de dois anos, com ensaios clínicos em doentes adultos com leucemia, ressalvando que a imunoterapia com linfócitos T gama-delta não pode ser generalizada a todos os cancros, atendendo à especificidade dos tumores, sendo, por exemplo, contraindicada no cancro da mama.

O cientista, que é vice-presidente do iMM Lisboa, explicou à Lusa que as células T gama-delta especializam-se no combate a 'invasores' diferentes, consoante os 'sinais' recebidos do timo ou resultantes da interação das células entre si.

No caso do cancro, os linfócitos T gama-delta têm de ter 'sinais fortes' para erradicá-lo, mas, para eliminarem fungos, e cumprirem a sua função antifúngica, as mesmas células têm de receber 'sinais fracos', precisou o também docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa.

O trabalho agora publicado foi desenvolvido em colaboração com a Universidade Complutense, em Madrid, Espanha, e foi financiado pela Comissão Europeia, através do Conselho Europeu de Investigação, que apoia projetos de investigação fundamental considerados de excelência.