O Parlamento Europeu decidiu encerrar um dos sistemas sem fios de acesso à Internet (wi-fi) e ordenou a abertura de um inquérito, depois de um pirata informático ter devassado durante semanas as caixas de email de vários eurodeputados e funcionários. A revelação foi feita no fim da semana pelo site francês Mediapart.

De acordo com o Mediapart, o pirata, que não é identificado, teve acesso a «dezenas de milhares de emails, documentos confidenciais, cadernos de endereços, agendas, correspondência profissional, mas também privada».

O site optou por publicar o nome de todos os visados, que incluem seis eurodeputados, três franceses, um alemão, um italiano e a socialista portuguesa Ana Gomes. Quatro assistentes parlamentares, incluindo um de Ana Gomes, um colaborador de um grupo parlamentar e dois funcionários dos serviços informáticos e de segurança foram as outras pessoas afetadas.



De acordo com o Mediapart, a intenção do «hacker», qualificada pelo próprio como de «natureza política», foi provar a fragilidade do sistema informático do PE.

«Escandalizado pela falta de reação da classe política às revelações de Edward Snowden, [o pirata] quis provocar um eletrochoque e fazer da questão da soberania numérica um tema central das próximas eleições europeias», afirma o site, numa referência ao antigo colaborador da National Security Agency (NSA) que revelou a espionagem em larga escala realizada pelos serviços secretos dos EUA na Europa, incluindo de inúmeros responsáveis políticos.

Ainda de acordo com o Mediapart, o pirata também quis demonstrar o risco de recurso das instituições públicas ao sistema operativo e às aplicações da Microsoft, cuja fidedignidade é com frequência posta em causa.

O pirata terá referido ao Mediapart que a devassa das 13 caixas de correio eletrónico foi uma «brincadeira de crianças» para a qual apenas precisou de um computador «de gama baixa» com um acesso à Internet por wi-fi, mais «alguns conhecimentos que toda a gente pode encontrar na Internet».

A entrada nas caixas de email foi possível a partir de uma aplicação da Microsoft instalada nos smartphones dos deputados que lhes dá acesso aos servidores do PE e que tem registados os dados de entrada, como nome de utilizador e palavra-passe. A partir dessa aplicação, os smartphones conectam-se regularmente às contas de email dos deputados para verificar se há novas mensagens. O pirata apenas precisou de programar o próprio computador para o colocar, via wi-fi, entre os smartphones e os servidores do PE, o que lhe permitiu decifrar os dados de acesso e entrar nas contas das pessoas escolhidas.

De acordo com o serviço de imprensa do PE, a pirataria incidiu apenas sobre a rede externa de wi-fi do PE, que, como qualquer sistema aberto, coloca os utilizadores em situação de grande vulnerabilidade face a eventuais ataques de «hackers». A rede interna de wi-fi, limitada a deputados e funcionários, não foi devassada. «Temos a certeza absoluta disso», garantiu o diretor do serviço de imprensa do PE.

Jaume Duch confirmou ainda que a rede externa de wi-fi foi encerrada logo a seguir à publicação das revelações do Mediapart e que assim permanecerá pelo menos até à conclusão da investigação aberta pelo PE.