A maratona tecnológica Hack For Good, que aconteceu este fim-de-semana na Fundação Calouste Gulbenkian, chegou ao fim. A plataforma Cuidar-e foi a grande vencedora, arrecadou mais de 15 mil euros em prémios.

Durante mais de 27 horas, 36 equipas de inventores estiveram reunidos numa sala da Fundação Calouste Gulbenkian para encontrarem soluções tecnológicas com impacto social no envelhecimento ativo.

No total, concorreram 157 pessoas, sendo a maioria do norte do país e com as mais variadas formações profissionais: estudantes, médicos, gestores, informáticos, programadores, economistas, designers e psicólogos, entre tantas outras.

As inscrições no Hack For Good podiam ser individuais ou em grupo e, por isso, houve equipas formadas no primeiro minuto do evento. Os participantes usaram as primeiras horas para trocar impressões, arrumar ideias e encontrar as melhores soluções para as concretizar.

O público sénior português adapta-se bem à modernidade e este evento serviu para mostrar que é possível criar esta interface”, considerou Alexandre Castro Caldas, membro do júri, professor universitário e neurologista, acrescentando que os participantes “aprenderam necessidades que nem sabiam que existiam”.

App desenvolvida por um agricultor vence 3.º lugar

Voice Ring é uma aplicação de gestão de tarefas para idosos autónomos que gera um feedback instantâneo para o cuidador acerca da concretização das mesmas.

A aplicação foi criada por cinco pessoas que, até este sábado, não se conheciam. Inês é licenciada em dança, Mafalda está a tirar mestrado em design de produto, Rúben Rodrigues tem formação em cinema, Miguel Nunes é estomatologista e Porfírio Ribeiro não tem formação superior, é agricultor.

Não nos conhecíamos. Inscrevemo-nos individualmente e depois, através de conversas online, percebemos que tínhamos interesses comuns”, explicou Mafalda.

Os cinco têm interesse em startup’s, empreendedorismo social e, neste sentido, o Hack For Good encaixou-lhes como uma luva. Se uns pensavam o que fazer, outros, nomeadamente Porfírio Ribeiro, sabia como o concretizar.

Apesar de não ter estudos avançados, sempre fui curioso por informática”, disse o criador da aplicação Voice Ring.

A equipa ganhou 10 mil euros em licenças, com validade de um ano, para produtos e serviços IBM. Cada elemento do grupo recebeu ainda um smartphone de última geração. O Voice Ring pode ter nascido no Hack For Good mas a equipa garante estar entusiasmada para trabalhar com os olhos postos no futuro. “Isto foi só o primeiro passo, acreditamos no produto e estamos muito entusiasmados”, concluiu Inês.

Equipa do norte criou o “software invencível”

Os Being AcCOMPatble assumem-se como “criadores de software invencível”. São programadores profissionais e trabalham numa empresa com mais de 43 anos de experiência em inovação e tecnologia. Da ideia inicial, que consistia em criar um software capaz de interligar dispositivos através de Bluetooth, recolher informação e partilhar dados biomédicos, surgiu a My Ximi.

Por um lado, a aplicação monitoriza parâmetros biomédicos, como frequência cardíaca ou glicemia, e envia alertas para os cuidadores formais (médicos, enfermeiros, farmacêuticos) e informais (familiares, IPSS) quando algum parâmetro está fora do normal. Por outro, através de jogos e desafios o idoso é convidado a ter mais atividade física, que lhe dará pontos para conquistar prémios. Ou seja, a aplicação desafia-o a fazer um caminhada e a convidar um amigo, se ele o fizer ganha X número de pontos que depois podem ser convertidos em viagens, descontos, etc. “Esta ideia também tem como objetivo combater o sedentarismo”, explicou a equipa na apresentação do projeto.

Nunca pensámos que a nossa ideia ficasse entre as premiadas”, disse Nelson Pinho.

My Ximi valeu o segundo lugar à equipa de programadores que recebeu dez mil euros em licenças da IBM, válidas por um ano, para serviços e produtos úteis no desenvolvimento de novas tecnologias e um cheque no valor de dois mil euros.

No final do Hack For Good, os programadores afirmaram que a necessidade de desligar o “complicómetro” para ver tudo mais claro foi um dos maiores ensinamentos desta experiência. “Tivemos a sorte de ter mentores ligados a áreas mais relacionadas com o social e o design. Explicaram-nos que as nossas ideias estavam certas mas estávamos a seguir o caminho mais longo e complicado para as realizar”, disse Nelson Pinho.

Percebemos que a tarefa dos programadores não é apenas olhar para códigos e executá-los. É preciso afastarmo-nos e ver qual a melhor solução”, acrescentou Ricardo Tavares.

Cuidar-e, uma app pensada para cuidadores informais

A ideia vencedora da primeira edição do Hack For Good foi uma plataforma criada para ajudar os cuidadores na gestão das tarefas e demais compromissos que tenham com os idosos. “Não são só os idosos que lidam com a solidão, por vezes aqueles que cuidam dos mais velhos também vivem muito isolados”, explicou António Miguel, membro da equipa My Flying Grandma, da qual também fizeram parte Pedro Pimentel e Elisabete Serra.

A plataforma Cuidar-e tem três campos distintos e um dedicado às questões frequentes. O primeiro permite ao cuidador, através do registo no site, criar uma agenda de tarefas e compromissos. Depois os utilizadores conseguem interagir entre si e trocar experiências. A última diz respeito à Segurança Social, que tem, no seu site, um conjunto alargado de informação sobre subsídios para idosos cujas fórmulas de cálculo e atribuição passam a estar disponíveis na Cuidar-e de forma simples e prática.

Acreditamos que a plataforma pode ajudar os cuidadores a melhorarem o trabalho que realizam com os idosos”, frisou Elisabete.

O grupo recebeu um cheque no valor de cinco mil euros; licenças da IBM por um ano, no valor de 10 mil euros, para o desenvolvimento de produtos e serviços úteis para soluções tecnológicas; e ainda presença gratuita na AAL, evento internacional de tecnologia, que terá lugar na Suíça em setembro deste ano.

Os restantes sete finalistas, os grupos Stories for good, Go Girls, MDTeam, H4PPS, Shopping Volunteers, Dev11 e Sention, também terão acesso a licenças da IBM para desenvolverem os seus projetos.

Hack For Good vai voltar no próximo ano

Artur Santos Silva, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, congratulou os vencedores e os restantes participantes. "O trabalho realizado nesta maratona foi fantástico", disse. Sobre os outros 26 projetos, que não chegaram aos dez finalistas, Santos Silva garantiu que irão ser convidados para apresentarem o trabalho desenvolvido “num futuro próximo na Gulbenkian”.

O presidente da Fundação sublinhou ainda que os parceiros do evento estão disponíveis para colaborar com as equipas formadas nesta jornada tecnológica. Luís Jerónimo, do Programa Gulbenkian Desenvolvimento Humano, disse que o balanço deste primeiro Hack For Good superou todas as expectativas

O balanço supera largamente as nossas expectativas. Foram 24 horas muito diferentes nesta casa, transformámos uma galeria de exposições num laboratório de experimentações e testes de soluções tecnológicas”, disse acrescentando que o trabalho conseguido pelas 36 equipas foi “extraordinário”.

A sessão de enceramento da maratona tecnológica deixou a garantia de que o projeto não fica por aqui e regressa em 2017.