Quem quiser ver um dos mais antigos e intrigantes manuscritos bíblicos, tem apenas 30 segundos. É o tempo que resulta da solução encontrada pelos curadores do Museu de Israel para mostrar o pergaminho do primeiro de sete rolos encontrados em grutas em Qumrán, na Cisjordânia, em 1947, um ano antes da fundação do estado hebraico.

O frágil manuscrito, que se tem vindo a desintegrar, apesar de ser conservado numa câmara climatizada, está agora exposto em condições especiais, por se saber que não suportaria ser apresentado como muitos dos outros documentos encontrados em Qumrán. Está numa urna coberta por um cristal, com duas camadas, que apenas permitem passar um ténue feixe de luz entre elas e por apenas 30 segundos. Além disso, o mostruário contém também um microchip que regista constantemente as condições ambientais.

O Museu de Israel promete até junho mostrar as restantes partes dos manuscritos, até voltarem a ser guardados em segurança, na câmara climatizada, onde estão há 50 anos.

De três em três meses mostramos uma secção diferente e assim asseguramos a sua preservação. Mas com este "Génesis apócrifo" não podemos fazer isso, porque se desintegraria. Por isso, esta ocasião para o ver é única", salientou o conservador Adolfo Roitman, diretor do Santuário do Livro, do Museu de Israel, citado pelo jornal espanhol El Mundo.

A descoberta dos rolos

O fragmento dos sete rolos agora exposto, o mais intrigante e misterioso, integra os chamados manuscritos do Mar Morto, quase mil documentos escritos em aramaico e hebraico, encontrados em onze cavernas em Qumrán, no deserto da Judeia, na Cisjordânia, entre 1947 e 1956.

No caso, o "Génesis apócrifo" pertence aos primeiros sete manuscritos encontrados em 1947 por alguns pastores beduínos, que os descobriram dentro de dez jarros de barro. Venderam-nos e após imensas voltas, acabaram por ser comprados por investigadores judaicos e pelo então criado estado de Israel.

Em 1955, o investigador James Bieberkraut chegou a trabalhar no frágil documento, escrito em aramaico, a antiga língua semita falada pelo povo Arameu da antiga Síria. Sucede que, ao contrário de outros documentos, alguns escritos em hebraico antigo, este "Génesis apócrifo" está registado num pergaminho e não em papiro, a planta usada pelos antigos egípcios para escrever. E as tintas usadas são também especialmente sensíveis à luz.

É sem dúvida uma cópia muito antiga de um texto original. Os traços da escrita estão feitos com muito cuidado, sem erros, e isso, nessa época, só era possível tendo diante o texto a copiar", sustenta o curador do Museu de Israel, Adolfo Roitman.

O sacrifício de Noé

O texto agora exposto terá sido escrito no século I antes de Cristo. Contém uma versão, dos capítulo 5 ao 15, do primeiro livro do Velho Testamento, que corresponde ao Génesis da Bíblia ou, com algumas diferenças, ao Bereshit, da Torá judaica.

Por isso, o pergaminho é conhecido como "Génesis apócrifo", sem autor conhecido, com uma autenticidade por comprovar e não reconhecido nos cânones biblícos das Igrejas cristãs. Tem a particularidade de narrar a história como se fosse o próprio Noé a contá-la, ao invés dos textos reconhecidos, em que a narrativa está na terceira pessoa.

De acordo com o Génesis, Deus arrependeu-se de ter criado o homem, devido à maldade que este espalhara na Terra. Resolveu inundar tudo com o dilúvio, encarregando Noé, que sempre fora temente e agira bem, de criar uma arca, com um casal de cada espécie animal existente.

Com a idade de 600 anos e três filhos, dos quais fora pai quando teria 500 anos, Noé cumpriu a ordem. Sobreviveu ao dilúvio e saiu da arca no ano de 2348 antes de Cristo. No Génesis, conta-se que, ao ver-se salvo, ergueu um altar em terra e sacrificou "animais puros e aves puras", como reza o versículo 20, do capítulo 8 do primeiro livro.

Sucede que, no "Génesis apócrifo", a versão difere. Será o próprio Noé a contar que ergue o altar e faz o sacrifício dentro da própria arca onde andara à deriva durante o dilúvio.

Do ponto de vista histórico, também faria sentido. Porque se falamos da destruição que devastou a Terra, o sacrifício teria sido feito para garantir a purificação do exterior", considera o curador Adolfo Roitman, sobre esta, de entre outras diferenças registadas no "Génesis apócrifo", onde se narra as existências de Abraão e Noé.