Um investigador português descobriu que o gafanhoto do deserto altera a sua capacidade de aprender e de recordar, dependendo se vive sozinho ou em grupo, uma descoberta que é publicada esta quinta-feira na revista científica «Current Biology».

O gafanhoto do deserto é uma espécie que «tem uma particularidade muito interessante, pode assumir duas fases completamente diferentes: uma fase solitária, em que vivem sozinhos em pequenas manchas de vegetação no deserto e em que se evitam uns aos outros e outra fase gregária, que normalmente tem milhões de indivíduos que fazem aqueles enxames bíblicos que provocam grandes estragos na agricultura», disse à Lusa o investigador, Patrício Simões, da Universidade de Brighton.

O autor do estudo explicou então que partiu desse princípio para questionar se essas duas fases apresentariam diferenças na aprendizagem e na memória.

Para isso, os gafanhotos foram testados e treinados em laboratório.

«O que fizemos foi: pegámos nesses gafanhotos solitários, juntámo-los no meio da multidão e desse modo transformámo-los em gregários, que é como eles fazem no deserto, juntam-se aos poucos e o comportamento e o aspeto físico vão-se alterando muito rapidamente. O que vimos é que os solitários, na companhia de outros, não esquecem as memórias criadas antes», contou.

Curiosamente, também verificou que, quando os gafanhotos se juntam e assumem a fase de grupo, «não criam memórias aversivas, não conseguem criar memória do que é mau».

«Descobrimos que, em fase solitária, aprendem rapidamente a evitar cheiros que estão associados a toxinas, enquanto os gregários demoram algum tempo a evitar o cheiro associado à toxina», acrescentou o investigador da Universidade de Brighton.

Ou seja, os gafanhotos solitários evitam ingerir comida venenosa, mas, na companhia de outros, começam a ingeri-la como estratégia para os proteger dos ataques dos predadores.

Para o investigador o extraordinário é que, dependendo da fase em que estão, os gafanhotos aprendem de forma diferente a reagir perante alimentos com toxinas e simultaneamente processam-se transformações também ao nível da memória.

Não gostar de um odor (alimento venenoso) é uma memória que se forma na fase solitária e perdura ao longo da transição para a fase de grupo - processo que demora entre algumas horas a dias.

Quando estão na fase de grupo «não aprendem da mesma forma o que é mau e apagam supostas memórias que tenham sido feitas antes sobre plantas más».

Os gafanhotos do deserto são naturalmente solitários, porque vivem em zonas desérticas onde há apenas pequenas manchas de vegetação isoladas, onde vivem isoladamente a vida toda.

Ocasionalmente chove no deserto, aumentando exponencialmente a vegetação e levando também a um grande aumento do número de gafanhotos, porque há mais plantas para comer.

Mas como o deserto volta a secar, essa vegetação resiste pouco tempo e seca, o gera uma situação de poucas plantas para uma quantidade enorme de gafanhotos, que entretanto nasceram devido ao eclodir de vegetação.

«Então os gafanhotos em fase solitária vão procurar as poucas plantas que existem, começam a agrupar-se nessas plantas e esse agrupamento provoca essa mudança de fase».

«Os solitários são lentos e gostam de ficar no mesmo sítio, os gregários são animais migratórios que fazem enxames de milhares de animais, capazes de voar durante quilómetros por dia à procura de comida», originando algumas das mais importantes pragas de insetos do mundo.

Patrício Simões iniciou este estudo enquanto aluno de doutoramento da Fundação Champalimaud.