O ex-presidente francês François Hollande defendeu esta terça-feira a necessidade de a Europa criar “um modelo de interesse geral” comum, de forma a mobilizar o continente num contexto de transformação tecnológica.

À escala da Europa é preciso criar um modelo de interesse geral. Desde logo, a primeira dificuldade é definir o que é um serviço público, o que é uma atividade de interesse geral. E proteger essa atividade de interesse geral. Depois, suprimir as barreiras que podem criar constrangimentos e travar o progresso”, disse, na Web Summit, a decorrer em Lisboa.

Num painel dedicado à interação entre o social e a tecnologia - “More social good in tech, more tech in social good” – o ex-chefe do Estado francês começou por defender as virtudes da tecnologia “para agir sobre os problemas de interesse geral”.

“Mesmo sabendo que a tecnologia pode ser privatizada, capturada, subvertida por grupos que não têm o interesse geral como seu principal objetivo”, observou.

Mas simultaneamente, prosseguiu, é necessário “dar a cada um, cidadãos e empresas, uma dimensão de cidadão, sensibilizar cada um de que não estão confinados à pesquisa ou ao seu interesse particular”.

É preciso um grande mercado do interesse geral à escala da Europa (…) grandes projetos de interesse geral em que a Europa se possa fixar como objetivo (…) cuja execução possa ser depois confiada aos mais variados atores”, advogou.

A Web Summit decorre até quinta-feira, no Altice Arena (antigo Meo Arena) e na Feira Internacional de Lisboa (FIL), em Lisboa.

Segundo a organização, nesta segunda edição do evento em Portugal, participam 59.115 pessoas de 170 países, entre os quais mais de 1.200 oradores, duas mil 'startups', 1.400 investidores e 2.500 jornalistas.

A cimeira tecnológica, de inovação e de empreendedorismo nasceu em 2010 na Irlanda e mudou-se em 2016 para Lisboa por três anos, com possibilidade de mais dois de permanência na capital portuguesa.

"Empreendedores têm o dever de evitar desigualdades tecnológicas" 

O ex-presidente de França François Hollande declarou ainda que os empreendedores têm o dever de "evitar as desigualdades" sociais criadas pela tecnologia e pelas barreiras no acesso à formação, para que a revolução numérica "não deixe ninguém para trás".

Vivemos - e temos a prova disso aqui na Web Summit em Lisboa - uma revolução, uma mutação considerável: a inteligência artificial, que virou ao contrário o nosso modo de vida, os veículos autónomos, a medicina preventiva, com os ‘robots’", disse Hollande no decorrer da cimeira tecnológica lisboeta.

Numa palestra intitulada "Como a inovação facilita a mudança", o antigo chefe de Estado francês reconheceu que o Mundo está "perante uma mutação social considerável", pelo que "é necessário que a esta rotura tecnológica se siga uma rotura social".

É este o vosso papel, dos empreendedores, evitar que haja uma separação de parte da população, [evitar] as desigualdades que se formam", disse Hollande.

Nesse sentido, "a formação é a grande prioridade" dos Governos e dos Estados em todo o mundo, não só "para que as empresas possam utilizar mão-d'obra qualificada", mas sobretudo "para fazer com que todos os jovens que querem participar nesta grande aventura do numérico possam fazê-lo com igualdade".

O vosso papel, o vosso interesse, é que a revolução numérica não deixe ninguém para trás", realçou François Hollande.

O ex-presidente francês deixou ainda várias sugestões sobre a sociedade moderna, caso estas questões não venham a ter solução.

"O que seria do Mundo se com esta revolução numérica se criassem desigualdades adicionais, se os mais frágeis se tornassem ainda mais expostos, menos protegidos, mais excluídos face àqueles que acedem a todo o conhecimento e a toda a formação?", questionou.