Morreu um dos pioneiros da Internet em Portugal. Fernando Soares tinha 55 anos e era Diretor Técnico da Media Capital Digital, empresa onde trabalhava há 16 anos, até há escassos dias. Deixa dois filhos.
 
O último dos desafios que teve pela frente foi o TVI Player, a plataforma de vídeo e live streaming da TVI, lançada em junho deste ano. Ricardo Tomé, diretor-coordenador da Media Capital Digital, recorda o seu entusiasmo frente aos desafios tecnológicos.
 

“Sem nunca atirar a toalha ao chão e sempre procurando a melhor solução para o problema e para a empresa. Motivado em dar espaço e liberdade aos elementos da sua equipa, animado com todo e qualquer novo desafio em torno da Web e participante ativo em todas as reflexões estratégicas sobre o digital e os Media”, recorda.

 
“Em qualquer pequena conversa ou longa reunião saíamos sempre a saber mais do que quando entráramos. Em 15 anos de IOL e de Media Capital Digital tudo teve muito do Fernando. E bom. Inúmeras conquistas. Vários prémios. Mas sobretudo os muitos que com ele trabalharam e guardaram amizade, conhecimento, admiração. Num percurso cheio, continuava a dizer que era ainda e apenas um jornalista que misturava uma imensa paixão por carros. Aqui de baixo sabemos que lá em cima está sobretudo um amigo”, confessa Ricardo Tomé.
 
Foram muitos os projetos inovadores que desenvolveu na Media Capital Multimédia (MCD). Fernando Soares foi responsável pela infraestrutura técnica do portal IOL, lançado em 2000 no Grupo Media Capital. Um desafio grande para um curioso, segundo lembra Pedro Morais Leitão, o primeiro diretor-geral da Media Capital Digital.
 

“Foi sempre sabendo adaptar-se. Era um camaleão. Aprendeu por si próprio. Não teve nenhum curso de engenharia ou de informática, era um curioso”, recorda Morais Leitão.

 
Foi o quarto funcionário da empresa de Internet da Media Capital. Morais Leitão conheceu Fernando Soares, em 1999, na Rádio Comercial. “Estava à procura de um responsável técnico para lançar o IOL. Foi uma aventura, na altura chegámos a ter na empresa 120 pessoas, numa total incerteza do que seria o amanhã, se haveria tráfego ou não”, lembra, dando conta do projeto ousado, da bolha da Internet que estava a nascer e que, pelos vistos, sobreviveu.
 
Este ano, ao assinalarem-se 15 anos de IOL, numa entrevista ao programa Você na TV, Fernando Soares relembrou o dia que o deixa para sempre ligado ao portal. “Foi um frenesim completo e absoluto. Na véspera nada estava pronto, à boa maneira da televisão, à portuguesa. Ainda nessa noite (28 de março de 2000) as coisas não correram muito bem. Houve uma série de percalços, tivemos quase para adiar o lançamento”, confidenciou. Ainda recentemente, entre colegas e amigos da MCD, contou que a cerimónia de lançamento no Centro Cultural de Belém chegou a estar em dúvida por causa de um problema técnico, resolvido apenas na hora do lançamento, quando descobriu ser devido a um simples cabo que tinha de ser substituído.
 

O Big Brother deitou abaixo a Internet
 

O lançamento do IOL esteve ligado ao arranque do primeiro Big Brother em Portugal. No site do reality show havia várias câmaras em direto online e esse fator inovador acabou por ser responsável por deixar Portugal inteiro sem Internet. No dia do famoso pontapé que o concorrente Mário deu à concorrente Sónia, tal foi o interesse dos internautas que a Net veio mesmo abaixo em todo o país, o que causou um enorme problema com necessidade de detalhadas explicações por parte da direção de Pedro Morais Leitão.
 
“O Fernando Soares esteve 12 horas desaparecido a resolver o problema e, durante esse tempo, ninguém conseguiu falar com ele”, recorda Morais Leitão. Uma relação de confiança construída que acabou em amizade. “Eramos amigos, ainda há duas semanas almoçámos juntos”, lembra.
 
Entre colegas e amigos, Fernando Soares gostava de partilhar histórias dos primeiros tempos da Internet em Portugal, que ele conhecia tão bem.   
 
Foi responsável pela primeira app de uma televisão em Portugal: a TVI24. Mas no seu currículo somam-se desafios tecnológicos, como o primeiro streaming de um jogo de futebol em Portugal, onde estava em campo o União de Leiria, equipa patrocinada pelo IOL. Teve a seu cargo o ISP, o serviço de Internet ao consumidor da Media Capital, e outros projetos à frente do seu tempo, como o IOLTalkie, que era um Skype antes do tempo e muitos outros, como, por exemplo, o serviço de venda de bilhetes online denominado Plateia, não esquecendo o suporte e desenvolvimento de todos os sites do IOL e TVI até ao presente.
 

Do jornalismo à Internet: as paixões

 
Fernando Soares conheceu Paulo Querido quando ambos eram jornalistas de desporto, no início dos anos 80. Soares no Record, Querido na Gazeta dos Desportos. Cruzavam-se no átrio da Federação Portuguesa de Futebol, enquanto esperavam pelas conferências de imprensa. Perceberam que partilhavam uma paixão comum pelo mundo novo que era a Internet.
 

“Ele era uma pessoa muito apaixonada por aquilo que fazia. Não foi nada fácil deixar de ser jornalista. Foi um bom jornalista, tinha faro pela notícia, na descoberta da história”, recorda Querido, sublinhando a sua generosidade e entrega aos seus projetos.

 
Fã incondicional de ficção científica, a Fernando Soares interessou sempre o desafio que o futuro nos reserva, trazendo-o para o presente. Isso só se conseguia com duas características: generosidade e excesso. É por isso que a sua vida foi, muitas vezes, o espelho de frases de Lazarus Long, o seu personagem preferido dos livros de ficção científica de Robert A. Heinlein:
 

 "Vive tudo em excesso. A moderação é para os padres".

 
Fernando Soares e Paulo Querido trabalharam juntos pela primeira vez no suplemento Bit, eram amigos, dessas amizades que comungam os mesmos interesses e não apenas as circunstâncias. Na década de 80, voltaram a trabalhar juntos no Correio Informático, onde foi diretor, jornal quinzenal que deu origem à atual Computerworld. Mas antes disso, Fernando Soares tinha ainda passado pelo Diário Popular e pelo Semanário Desportivo.
 
“Fizemos várias coisas pioneiras. Uma delas foi uma publicação por fax com as notícias mais importantes, que os executivos recebiam às 7 da manhã. Era uma newsletter em 1990, foi a nossa primeira incursão na Internet”, recorda Paulo Querido, que com Fernando Soares montou um dos primeiros ISP (Internet Service Provider) em Portugal”. Estávamos “em 1991 ou 1992 e durou até 1995”. Começou com a criação de um BBS (Boletin Board System), um serviço inovador via telefone que suportava quatro ou cinco chamadas em simultâneo ligarem-se a computador e, por exemplo, descarregar o correio eletrónico.

“Éramos uns aventureiros, não tínhamos estrutura empresarial e, por isso, não fomos nós que ficámos para a história”.
 

A história de Fernando Soares acabou a 9 de dezembro de 2015, mas ficará sempre a memória.