Uma equipa de investigadores suíça conseguiu recriar em laboratório a ilusão de uma presença semelhante a um «fantasma», sugerindo que o «sentimento de presença» advém de uma confusão dos sinais do cérebro, em que por momentos se perde a noção da posição do próprio corpo e movimentos no espaço.
 
« A nossa experiência induziu a sensação de uma presença estranha em laboratório pela primeira vez. Isso mostra que ela pode surgir em condições normais, simplesmente através de sinais sensório-motores em conflitantes», conta Blanke, investigador do projeto.
 
Primeiro os neurocientistas começaram por estudar o cérebro de doze pessoas com distúrbios de foro neurológico, a maior parte epiléticos, que já tinham presenciado «aparições». 

Após uma análise minuciosa, concluíram que o córtex insular, parietal-frontal, e temporo-parietal, áreas envolvidas na perceção sensorial dos movimentos corporais, posição espacial e autoconhecimento.

Avançaram então para testes práticos, no qual os voluntários, sem conhecimento dos objetivos do estudo, foram vendados e fizeram movimentos com as mãos à frente do corpo, enquanto um robot reproduzia os movimentos em tempo real e lhes tocava nas costas, resultando numa discordância espacial.
 

De seguida, os investigadores procuraram dessincronizar os movimentos, e introduziram um atraso temporal entre os movimentos das pessoas e o toque do robot, de modo a não só criar uma distorção espacial, mas também temporal, recriando assim um «fantasma». 

Depois de cerca de três minutos os cientistas perguntaram se tinham sentido o toque, ao que os voluntários responderam ter sentido uma «presença forte», observados e tocados por aparições, chegaram até a contar quatro «fantasmas». Dois dos participantes ficaram de tal forma incomodados, que pediram para parar.
 
«Para alguns a experiência foi tão forte que eles pediram para parar», disse Giulio Rognini, um dos neurocientistas envolvidos na experiência.
 

«O sistema robótico simula as sensações de alguns pacientes com transtornos mentais ou de indivíduos saudáveis sob circunstâncias extremas. Isso vem confirmar que é causada por uma perceção alterada de seus próprios corpos no cérebro», acrescentou Blanke.

Os relatos de «fantasmas» não são algo recente ou pouco comum. Nos anos 70, exausto e congelado, o alpinista Reinhold Messner, ao descer com o seu irmão do cume Nanga Parbat, nos Himalaias, relatou uma experiência incomum.
 
«De repente houve um terceiro alpinista connosco, um pouco à minha direita e alguns passos atrás de mim, apenas fora do meu campo de visão», contou.

Pacientes com patologias neurológicas ou psiquiátricas dizem frequentemente sentir uma presença estranha, assim como alguns sobreviventes ou pessoas que ficaram viúvas por vezes dizem sentir uma presença invisível, às vezes persistente, que comparam a anjos da guarda ou demónios.

O objetivo deste estudo, divulgado na revista científica «Current Biology», é também entender alguns sintomas próprios da esquizofrenia, uma doença muito associada a alucinações. Os delírios a ela associados são atribuídos por muitos cientistas ao mau funcionamento dos circuitos cerebrais, relacionados com os dados sensoriais e aos movimentos do corpo.

A crença nos «fantasmas» é comum a muitas culturas, sendo pouco provável que esta experiência venha diminuir a convicção de milhares de pessoas por todo o mundo.