Investigadores do Reino Unido concluíram que cerca de 400 contas falsas do Twitter ligadas à Agência de Pesquisa de Internet russa (a Internet Research Agency, IRA) influenciaram a política britânica, nomeadamente o Brexit. A IRA, conhecida como “fábrica de trolls”, volta e meia surge em estudos e reportagens que atestam as suas manobras de manipulação. Mas esta empresa russa é apenas uma das peças de um puzzle cada vez mais complexo: os grupos de "trolls" da Internet, isto é, as contas e os utilizadores que promovem polémicas e desinformação, e que estão afetos a diferentes governos.

Uma simples imagem numa rede social, num determinado momento, pode ter o efeito de um gigantesco tsunami virtual. Foi o que aconteceu em março, após o ataque na ponte Westminster, em Londres, com a imagem de uma muçulmana que foi partilhada na Internet com o intuito de difundir um sentimento anti-islâmico e que teve ecos em jornais como o Daily Mail e o The Sun.

A fotografia mostrava uma vítima do ataque caída no chão, várias pessoas à volta dela a prestar-lhe auxílio e uma mulher com um véu islâmico a passar ao lado. O utilizador do Twitter Texas Lone Star (@SouthLoneStar) partilhou a imagem para os seus mais de 40.000 seguidores e, erradamente, acusou a mulher de ignorar o que estava a acontecer.

A publicação depressa gerou milhares de partilhas e comentários. Tornou-se viral e a sua mensagem falsa chegou a milhares de pessoas que não hesitaram em mostrar indignação.

Esta não era, porém, a primeira vez que o utilizador Texas Lone Star promovia publicações virais. Durante a campanha eleitoral dos Estados Unidos, em 2016, ele, que se assumia na biografia como um “orgulhoso americano e texano”, já tinha promovido a criação de mensagens virais de apoio a Donald Trump e críticas ferozes a Hillary Clinton e Barack Obama.

Para além do xadrez da política norte-americana, os ataques terroristas, fossem em solo americano ou em território europeu, eram outro dos seus principais interesses. E não perdia uma oportunidade para criticar os muçulmanos e promover ideias anti-islâmicas.

Muitos terão pensado que Lone Star era um cidadão do Texas ligado à extrema-direita norte-americana, mas, afinal, sabe-se agora, este americano conservador nunca existiu. Esta conta era falsa, teve origem na Rússia e foi criada precisamente pela Agência de Pesquisa de Internet russa (IRA).

O impacto da atividade da IRA nas eleições presidenciais dos Estados Unidos tornaram-na famosa em todo o mundo.

Recentemente, o Facebook, o Twitter e o Google confirmaram no Congresso norte-americano o que já se suspeitava: as ligações à Rússia de várias contas falsas, que manipularam opiniões durante a campanha eleitoral. Só no Facebook foram 80 mil publicações, que foram visualizadas por cerca de 126 milhões de norte-americanos.

Recentemente, foi noticiado pelo site RBC que, em dois anos, a IRA gastou dois milhões de dólares em operações nos Estados Unidos. Durante esse período, a empresa tinha 90 funcionários na Rússia a tratar apenas destas tarefas e contratou cerca de 100 ativistas norte-americanos para realizar ações, eventos e comícios, em vários estados.

Apesar de se ter tornado mais mediática nos últimos dois anos, a verdade é que se fala sobre a existência da IRA desde 2013.

 

Uma "fábrica de trolls" ao serviço do governo russo

Em 2013, foram divulgados os primeiros documentos que denunciavam as operações da IRA: uma organização que criava informação falsa, de forma intencional, ao serviço do governo russo, gerindo campanhas de desinformação em redes sociais, fóruns, blogs e outras plataformas online.

Já nessa altura, esta empresa tinha um orçamento milionário, metade do qual era pago em dinheiro vivo, e empregava mais de 600 pessoas em toda a Rússia, embora a sua sede fosse em Ogino, São Petersburgo.

Os empregados recebiam entre 800 e 1000 dólares por mês, salários atrativos para jovens, à procura de uma primeira oportunidade no mercado de trabalho.

Com turnos de 12 horas, os funcionários eram responsáveis por várias contas falsas nas principais redes sociais. Contas através das quais deixavam mensagens de apoio ao governo russo e críticas aos que se colocavam no caminho dos seus interesses, como o governo da Ucrânia ou Barack Obama.

Isto mesmo foi testemunhado por Lyudmila Savchuk, que enquanto trabalhou na IRA procurou reunir provas com as quais pudesse denunciar estas operações.

Tínhamos que dizer que Putin era um grande camarada, que os opositores russos eram maus e que Obama era um idiota”, revelou numa entrevista ao Telegraph.

Savchuk queria - e ainda quer - encerrar a atividade da IRA, mas isto não podia ser tarefa fácil num país em que não há qualquer lei que preveja uma punição para a publicação de informações falsas na Internet.

O advogado de Savchuk, Ivan Pavlov, disse ao Washington Post que tentaram fazê-lo “da mesma forma que apanharam Al Capone”, através de uma eventual fuga aos impostos. Mas no caso da IRA não há fuga aos impostos, uma vez que a maioria das transacções, nomeadamente o pagamento dos salários, é feito em dinheiro vivo.

Os media russos independentes que investigaram a organização dizem que a mesma está ligada a Yevgeny Prigozhin, um empresário do círculo de relações de Vladimir Putin.

A IRA é apenas uma peça de um puzzle cada vez mais complexo: os troll armies (exércitos de trolls em tradução livre), contratados para manipular a opinião pública. 

 

Uma nova forma de propaganda

Durante a Guerra Fria, Estados Unidos e União Soviética usaram filmes e programas de televisão como veículos de propaganda para influenciar os cidadãos. Agora, na era digital, é na Internet que reside a chave para mover as massas. E é aqui que entram os "exércitos" de trolls. Embora tenha um dos mais conhecidos, a Rússia não é o único governo a ter um.

Outro caso muito mediático é o da China. A existência de um grupo de pessoas que são pagas para deixar comentários favoráveis ao governo e às suas políticas na Internet não é segredo nem parece ser tabu no país, pois até o jornal do regime, o Global Times, já abordou o assunto. Este grupo ficou conhecido como “50 Cent Party” pois alegadamente recebe 50 cêntimos por cada texto ou comentário que ajuda os interesses do partido.  

Um estudo recente da Universidade de Harvard, dos Estados Unidos, concluiu que as autoridades chinesas colocam, por ano, cerca de 448 milhões de mensagens falsas na Internet.  

Israel é outro país que tem milhares de pessoas a trabalhar as redes sociais e equipas específicas para as várias plataformas. Jovens familiarizados com as redes sociais e apoiantes do governo são sempre os escolhidos nos processos de recrutamento e muitas vezes, recebem em troca bolsas escolares.

Em 2014, durante o conflito com o Hamas, o grupo Israel Under Fire foi um dos mais ativos nas redes sociais, com comentários e publicações de apoio às forças israelitas. Com milhares de seguidores, este grupo deu apenas a conhecer um dos lados da história.

Ucrânia, Turquia, Coreia do Norte e Coreia do Sul são outros exemplos. 

Com a circulação de notícias e comentários falsos na Internet, são as redes sociais, nomeadamente o Facebook, que têm estado debaixo de fogo. Diferentes organizações e ativistas têm pressionado as grandes tecnológicas a criar ferramentas que filtrem a informação. Os responsáveis reconhecem o problema e, por diversas vezes, já garantiram que estão a reunir esforços para combater o problema.