Em Green Bank, uma cidade a 350 quilómetros de Washington DC, nos EUA, não se ouvem telemóveis. Como aquela zona é o lar do radiotelescópio mais sensível do mundo e o sistema eletrónico iria interferir com a sua tarefa, a tecnologia é bastante limitada.
 
O radiotelescópio que se encontra em Green Bank é um dispositivo que capta o nascimento e a morte de estrelas e sinais tão fracos que são como meros sussurros vindos do espaço. Como o sistema dos telemóveis e das redes Wi-Fi iria interferir com essa função delicada, ali, a tecnologia é escassa.
 
Um efeito colateral desse silêncio é que Green Bank, com apenas 143 pessoas, tornou-se uma meca para pessoas que estão doentes devido a ondas eletromagnéticas.
 
Hipersensibilidade eletromagnética

Dezenas de pessoas foram para Green Bank para se curarem de uma doença chamada hipersensibilidade eletromagnética que, apesar de ser uma fonte crescente de preocupação num mundo cada vez mais conectado, não é formalmente classificada como uma doença pela Organização Mundial de Saúde (OMS).
 
Alguns estudos culpam as ondas eletromagnéticas, mas outros dizem que se trata de um problema psicossomático. A OMS planeia realizar uma avaliação formal, em 2016, do risco representado pelos mil milhões de telemóveis existentes no mundo.
 
Charles Meckna, de 53 anos, é um dos «refugiados» que se mudou para Green Bank. Charles deixou o Nebraska para fugir às ondas eletromagnéticas que, segundo o próprio, o faziam gravemente doente. «Se se perder o radiotelescópio, estou feito», disse Mecka à AFP.
 
O ex-chefe de construção vive agora com a esposa a poucos quilómetros do telescópio. O homem tinha estado doente desde 1990, mas levou um longo tempo para concluir que o culpado era o seu telemóvel. «Nem sequer fiz a correlação», admitiu o homem, acrescentando que no início dos seus problemas o médico lhe receitou antidepressivos.
 
Cada vez que Meckna se aproximava de uma fonte Wifi sofria de náuseas, enxaquecas e batimento cardíaco irregular. Depois de duas semanas em Green Bank, as dores de cabeça desapareceram. «Sinto-me muito melhor», afirmou.
 
Diane Schou, que sofreu depois de uma antena ter sido colocada perto da sua quinta, em Iowa, afirmou que tinha sido forçada a ir para Green Bank, onde vive desde 2007.
 
«Não há realmente nenhuma escolha, viver aqui ou noutro lugar e ter dores de cabeça», confessou Schou, que conta que a dor era tão má que passou um tempo a viver numa sala construída pelo marido, revestida de alumínio, que bloqueia campos elétricos.
 
«Pelo menos aqui, sinto que tenho um futuro. Posso sonhar com o que eu vou fazer e posso convidar pessoas», disse Schou.


 
O radiotelescópio mais sensível do planeta

Green Bank e a área em torno dela, em Pocahontas County, está no coração da «Quiet Zone», declarada em 1958 por cientistas. O telescópio, a 150 metros de altura, opera dia e noite capturando sinais do espaço.
 
«Podemos observar o nascimento e a morte de estrelas», explicou Michael Holstine, gerente do Laboratório Nacional de Rádio Astronomia. «Este é o radiotelescópio mais sensível do planeta», acrescentou.
 
É possível detetar um sinal com a energia equivalente ao impacto de um floco de neve a bater no chão. Mas para conseguir isso, o ambiente de rádio tem de estar silencioso.
 
A «National Radio Quiet Zone» é uma área de 33 mil quilómetros quadrados à volta do telescópio e as transmissões de rádio têm que estar a uma frequência uma baixa possível. Num raio de 16 km ao redor do telescópio, qualquer coisa que emita uma onda de rádio (Wi-Fi, telemóveis, controlos remotos ou micro-ondas) é proibida ou restrita.
 
«Por exemplo, quando se está a tentar monitorizar um quasar - objetos celestes enormes que emitem enormes quantidades de energia - um sinal de telemóvel é como um ruído alto e incómodo», disse Holstine.
 
«Um quasar normalmente dá um sinal que é um bilionésimo de bilionésimo de bilionésimo de um watt. Um telemóvel tem cerca de dois watts, por isso vai afogar completamente o que os astrónomos estão a tentar receber», explicou Holstine.