Trabalhar num padrão de turnos irregulares pode causar sérios danos ao cérebro num longo prazo, mostra um novo estudo, realizado em França. A investigação mostra que o sistema de turnos afeta o relógio interno de uma forma semelhante ao jet lag das viagens de longo curso.
 
Os investigadores das universidades de Toulouse, em França, e de Swansea, no Reino Unido, acompanharam três mil pessoas em França, que trabalham em turnos rotativos. Os resultados mostram uma diminuição da velocidade cognitiva em relação às pessoas com horários de trabalho regulares.
 
De acordo com o jornal britânico «The Independent», o nível de declínio cognitivo verificado em pessoas que trabalhavam em turnos irregulares é equivalente a 10 anos, enquanto o de pessoas com turnos regulares de trabalho é de seis anos e meio.
 
O que os cientistas não conseguiram explicar ainda é o modo como isso afeta biológica e quimicamente o funcionamento do cérebro.  É sabido que as pessoas que viajam regularmente para destinos de longo curso veem as funções cerebrais e biológicas afetadas. Pensa-se que isso possa estar relacionado com a rutura de algumas estruturas cerebrais, provocada pelo excesso de produção de determinadas hormonas. Um processo semelhante pode estar a acontecer com quem trabalha por turnos e alternam trabalho diurno com noturno.
 
Outra hipótese é o défice de vitamina D em quem trabalha durante a noite, provocado pela menor exposição à luz solar. Alguns estudos relacionam défices de vitamina D com o declínio da função cerebral.
 
Num artigo publicado no «British Medical Journal», os investigadores, liderados pelo médico Jean-Claude Marquié, da Universidade de Toulouse, sugerem que a interrupção da irregularidade dos turnos de trabalho aponta para uma melhoria das funções cognitivas, o que sugere que os efeitos nocivos desta prática de trabalho são reversíveis. Contudo, essa reversibilidade pode demorar mais de cinco anos a manifestar-se.
 
«O comprometimento cognitivo observado no presente estudo pode ter consequências importantes de segurança não só para os indivíduos em causa, mas também para a sociedade como um todo, dado o número crescente de postos de trabalho em situações de alto risco que são realizados à noite», alertam os cientistas.
 
«Isso também pode afetar a qualidade de vida dos trabalhadores por turnos, no que diz respeito às atividades de vida diária que são altamente dependentes da disponibilidade de recursos cognitivos», acrescentam.
 
Os cientistas sublinham a importância de manter uma vigilância médica dos trabalhadores por turnos, sobretudo daqueles que permanecem neste sistema 10 anos ou mais.