Um oceano primitivo em Marte continha mais água do que o Oceano Ártico na Terra e cobria uma maior superfície do «planeta vermelho» do que a que é coberta pelo Oceano Atlântico no «planeta azul», revela um estudo divulgado esta quinta-feira.

Em comunicado, o Observatório Europeu do Sul (OES) refere que os resultados foram obtidos a partir dos espectrógrafos dos telescópios VLT, do OES, e do ITF e do Observatório W. M. Keck, ambos da NASA, que operam no infravermelho e com os quais uma equipa internacional de astrofísicos conseguiu distinguir as assinaturas químicas de dois tipos de água atmosférica.

Com estes instrumentos, os cientistas mapearam «as propriedades da água em diversas regiões da atmosfera» de Marte durante cerca de seis anos.

«O nosso estudo dá-nos uma estimativa robusta da quantidade de água que Marte teve no passado, através da determinação da quantidade de água que se perdeu no espaço», sustenta o autor-principal da investigação, Geronimo Villanueva, que trabalha no Centro de Voo Espacial Goddard da NASA, em Greenbelt, nos Estados Unidos.

Segundo a equipa de investigadores, a estimativa «baseia-se em observações detalhadas de duas formas ligeiramente diferentes de água na atmosfera de Marte». Uma, explica o OES, «é a familiar forma da água, composta por dois átomos de hidrogénio e um de oxigénio», e a outra «é água semipesada, uma variação que ocorre naturalmente, na qual um dos átomos de hidrogénio é substituído por um átomo de deutério».

A nota do Observatório Europeu do Sul assinala que, há cerca de quatro mil milhões de anos (o Universo tem cerca de 14 mil milhões de anos) o jovem planeta Marte «devia ter água suficiente para cobrir toda a sua superfície com uma camada líquida de cerca de 140 metros de profundidade».

Contudo, adianta o OES, «o mais provável é que o líquido se tenha juntado para formar um oceano que ocuparia quase metade do hemisfério norte de Marte, onde algumas zonas teriam atingido uma profundidade de mais de 1,6 quilómetros».

No estudo, publicado hoje na revista Science, os cientistas fizeram, de forma repetida, os mapas da distribuição de água normal e água deuterada (esta última perde-se menos no espaço devido à evaporação) ao longo de quase seis anos terrestres, o equivalente a perto de três anos em Marte.

Ao compararem a razão de água deuterada para água normal, os astrofísicos «podem medir quanto é que aumentou a fração de água deuterada e, assim, determinar quanta água é que escapou para o espaço, o que, por sua vez, permite estimar a quantidade de água que Marte tinha no passado».

Os mapas de distribuição revelaram «variações sazonais e microclimas» na água atmosférica, apesar de Marte ser atualmente um deserto, o que, para os investigadores, pode ser útil na procura de água subterrânea no planeta