Uma investigação desenvolvida em Portugal captou, em vídeo, imagens inéditas de picadas de escorpiões. Foram analisadas sete espécies e, entre elas, estava o escorpião mais venenoso do mundo. Uma das conclusões do trabalho é que o escorpião com o veneno mais tóxico, capaz de matar um ser humano, é também o mais rápido.

Para conseguir as imagens inéditas foi criada uma arena, rodeada de espelhos, e assim foi possível captar, em três dimensões, o golpe da cauda dos escorpiões até à picada. O uso de uma câmara de alta velocidade permitiu depois “fazer uma reconstrução em 3D da trajetória do movimento da cauda”, explicou à TVI24 Pedro Lobo Coelho, o investigador principal do trabalho, desenvolvido junto do CIBIO - Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, da Universidade do Porto.

A investigação concluiu que há diferenças nos golpes das diferentes espécies de escorpiões. “Há diferenças na forma da trajetória, mas também na velocidade e na duração do movimento”, afirma Pedro Coelho. As sete espécies foram filmadas a lembrar as cenas “suspensas” do filme “Matrix”. De alguma forma “foi preciso expandir o tempo, para o olho humano conseguir ver o golpe”, justifica o investigador do CIBIO. 

“Dividimos cada segundo em 500 frames e só indo um a um é que conseguimos analisar e ver as diferenças. Estamos a falar de frações de segundo, que até um para um olho treinado é quase impossível detetar”

 

As espécies foram estudadas apenas no seu comportamento “defensivo” e não no seu comportamento predatório. Pedro Coelho acredita que possam haver diferenças na forma como é usada a cauda nas duas situações, mas esse não era o âmbito deste trabalho, divulgado esta semana na revista da especialidade Functional Ecology

Dos golpes filmados, o destaque vai para aquele que é considerado o escorpião mais venenoso do mundo, o Escorpião-Amarelo-da-Palestina, também conhecido como “Perseguidor da Morte” (“Deathstalker”). Além de ser o mais tóxico, é também o mais rápido.

E qual o mais lento? Segundo a investigação, o último lugar ficou para o Escorpião-Negro-Cuspidor.

A espécie mais lenta tem um tipo de comportamento muito particular. É um escorpião que é cuspidor de veneno. Ou seja, não tem que picar para injetar veneno, consegue fazê-lo à distância”, afirma Pedro Coelho à TVI24, considerando que neste caso, “essa pode ser a causa mais provável” para ser o mais lento.

 

Escorpião Amarelo da Palestina (Leiurus quinquestriatus)

Em relação à trajetória do golpe, os investigadores conseguiram descobrir padrões, há trajetórias mais fechadas, em forma de “O” e outras mais abertas, em forma de “C”. Sendo que “as trajetórias fechadas são associadas a baixas velocidades, e as trajetórias abertas são normalmente associadas a velocidades mais altas”.

Qualquer trabalho desta natureza tenta “descrever o que a natureza nos faz observar e, mais do que isso, tenta quantificar. Procurar a mecânica das coisas que vemos”. Segundo o investigador português, um dos objetivos do trabalho era “tentar prever o ambiente, através do animal isoladamente em si e como o ambiente o condiciona. Depois, fazer com que essa condicionante possa ser aplicada a todos os outros animais, que vivam nesse ambiente”.

Factos e curiosidades sobre escorpiões

À exceção da Antártida, há escorpiões em todos os continentes do mundo, que podem variar em formas e tamanhos. Por exemplo, o maior de todos, o Escorpião-Imperador, também analisado nesta investigação, pode chegar aos 20 centímetros.

Todos os escorpiões são venenosos e a diferença está na toxicidade que pode, ou não, ser fatal para os seres humanos. O melhor é não mexer em nenhum que se cruze no seu caminho. E Portugal também tem escorpiões. 

“O lacrau é o escorpião português e há relatos da picada ser extremamente dolorosa. Mas não será tão tóxico como outros”, explica Pedro Coelho. “No algarve e no alentejo existem muitos lacraus mas, por exemplo, no norte, na zona de Vila Real, também existem lacraus”.

Lacrau, o escorpião português - (Imagem da página oficial do Museu da Biodiversidade da Universidade de Évora. Foto de José Macedo)

Um dos factos que explica o fascínio por estes animais prende-se com a existência de “duas armas”: as pinças e o ferrão. Mas não só. São poucos visíveis e, na realidade, a maioria das espécies prefere distância dos seres humanos.

Apesar da aparência pouco simpática, para a maioria das pessoas, as mães escorpião são extremosas.

“Os escorpiões já nascem formados, como os seres humanos. A mãe costuma ter 20 ou mais bebés. E, depois, costumam ir todos para as costas da mãe. Esta toma conta deles durante quase um ano. Parece um contrassenso, mas os escorpiões têm uma coisa chamada cuidados maternais”

Os escorpiões são primos das aranhas e dos crustáceos como, por exemplo, caranguejos. E, ao contrário de algumas aranhas, que só vivem um ano, “em cativeiro, algumas espécies podem viver até dez anos. O que é muito”, garante Pedro Coelho.

A investigação, com destaque na imprensa internacional, teve como primeiro autor Pedro Lobo Coelho. O autor correspondente e coordenador do trabalho foi Arie van der Meijden, professor na Universidade do Porto. O artigo foi desenvolvido ainda com a colaboração de Mykola Rasko e Antigoni Kaliontzopoulou. Há excepção do Mykola Rasko, todos são investigadores do CIBIO, no departamento AP (Aplied Phylogenetics - Filogenética Aplicada).