O investigador brasileiro da Universidade do Minho Sergio Denicoli referiu que existem cerca de 20% de perfis falsos que circulam nas redes sociais para interferir no processo eleitoral brasileiro, o que representa uma "ameaça à democracia".

"Temos analisado, através de inteligência artificial, este tipo de perfil de interferência, que são perfis criados para interferir no processo eleitoral, o que inclui perfis "fake" (falsos) e robots", disse Denicoli, em entrevista à agência Lusa, acrescentando que "a média desses perfis é de cerca de 20%".

Os restantes 70% dos perfis pertencem a pessoas reais e os outros 10% são perfis de órgãos de comunicação social, disse o investigador, que é também diretor da AP/Exata, uma empresa de inteligência digital e análise de dados.

Nos perfis enganosos criados nas redes sociais são divulgados conteúdos adulterados e falsos, a favor ou contra determinado candidato.

Quanto aos partidos mais favorecidos neste tipo de propaganda falaciosa, Sergio não tem dúvidas em apontar o Partido Social liberal (PSL), de Jair Bolsonaro, e o Partido dos Trabalhadores (PT), anteriormente com Lula da silva e agora encabeçado por Fernando Haddad.

"Nós temos visto, no Brasil, o crescimento de candidatos como Jair Bolsonaro, que utilizam muito este tipo de informação. Não posso dizer que é o próprio candidato que utiliza, mas a militância que faz parte da sua campanha tem utilizado", garantiu.

"O PT também tem utilizado bastante, pelo menos é o que nós detetámos nas nossas análises. Basicamente, o PT e o candidato do PSL, Jair Bolsonaro, têm sido beneficiados com este tipo de informação", afirmou o investigador da Universidade do Minho.

Um dos principais problemas que estas falsificações acarretam é a dificuldade em desmentir a informação falsa num período de tempo viável. O facto de o processo eleitoral brasileiro ter sido reduzido a nível temporal é um dos contratempos em impor a verdade, assegurou Sergio Denicoli.

"O processo eleitoral no Brasil foi reduzido em relação às últimas eleições, antigamente (...) eram quase três meses e foi reduzido para 45 dias. Então, é um período muito curto. Não dá tempo de a pessoa rebater a informação falsa e tentar que as pessoas entendam o lado real", disse.

Este não é um fenómeno que afeta apenas o território brasileiro. Também as últimas eleições presidenciais dos Estados Unidos da América foram pautadas pelo tema das "fake news" (notícias falsas, em português) e pelos falsos perfis.

De acordo com a plataforma digital BuzzFeed News, nos últimos três meses da campanha eleitoral norte-americana, 20 histórias falsas relacionadas com as eleições, lançadas por blogues e sites que se diziam informativos, geraram 8,711 milhões de partilhas, reações e comentários no Facebook. Um alcance muito superior daquele que foi obtido por fontes informativas de referência, como os jornais New York Times, Washington Post e a NBC News, quando estes também transmitiram cerca de 20 histórias eleitorais.

Para combater este processo, Sergio Denicoli apelou a uma atuação das autoridades internacionais:

"Muitos perfis (falsos) são criados fora do Brasil, ou seja, estamos a tratar através de leis domésticas uma questão que é internacional. Então, é importante que a comunidade internacional encontre uma solução para isso porque eu acredito que é uma ameaça à democracia."

"(As notícias falsas) realmente influenciam a opinião das pessoas de uma forma equivocada e acho que não podemos ficar de braços cruzados perante isto. É um problema internacional que deve ser discutido nas esferas internacionais", rematou.

Nas investigações levadas a cabo por Sergio Denicoli foi também percetível uma mudança no paradigma eleitoral atual: os meios de informação tradicionais como a televisão e a rádio têm perdido influência nas eleições deste ano, em comparação com sufrágios anteriores.

"O que tem pautado as conversas das pessoas é o que acontece na rede social, ou seja, os programas eleitorais de televisão têm um impacto muito reduzido. (...) Os debates eleitorais (televisivos) acabam por repercutir-se porque são muito comentados nas redes sociais", afirmou.