Investigadores portugueses descobriram como identificar e controlar células imunitárias (linfócitos T) para as fazer actuar contra infecções e não para promoverem doenças auto-imunes, num estudo que poderá ter importantes aplicações terapêuticas, informa a Agência Lusa.

O trabalho, realizado por investigadores do Instituto de Medicina Molecular (IMM) da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, vem este domingo publicado na edição online da prestigiada revista científica Nature Immunology.

Combate infecções e cancro

«Descobrimos uma maneira de diferenciar duas populações de linfócitos T que produzem factores com actividades biológicas distintas», disse o responsável pela equipa de investigação, Bruno Silva-Santos.

Os linfócitos T são glóbulos brancos produzidos no timo, um órgão situado sobre o coração, que combatem infecções e cancro. Porém, estas células podem também ter efeitos indesejáveis, sobretudo se atacarem as próprias células do organismo.

Enquanto que um dos factores produzidos por estas células, o Interferão-gama, é importante no combate a vírus e a tumores, o outro, a interleucina-17, apesar de igualmente envolvido na resposta às infecções, tem efeitos maléficos e está na base de doenças inflamatórias e auto-imunes, como a diabetes ou a esclerose múltipla.

Importantes aplicações terapêuticas

Segundo o director da Unidade de Imunologia Molecular do IMM, o que distingue estas duas populações é um receptor, designado CD27, que está na superfície das células e lhes transmite sinais que recebe do exterior.

«Nós conseguimos manipular este receptor de forma a controlar a geração das duas populações de linfócitos T», afirmou, sublinhando que «este conhecimento poderá ter importantes aplicações terapêuticas», dadas as funções distintas das duas populações de células.

«O processo que identificámos funciona como uma reeducação das células T dos ratinhos e abre perspectivas na imunoterapia de doenças inflamatórias e auto-imunes», assinalou.

Apesar deste trabalho ter sido realizado em modelos de experimentação animal, Bruno Silva-Santos garante dispor de evidências preliminares da conservação destes fenómenos nos seres humanos.

Nesse sentido, referiu que a investigação futura da sua equipa «irá analisar o potencial de aplicação destes conhecimentos em células humanas».

O estudo contou com a colaboração do Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), ao qual esta equipa do IMM está associada, bem como de investigadores estrangeiros nos Estados Unidos, Holanda e Reino Unido.

Bruno Silva-Santos licenciou-se em Bioquímica pela Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, doutorou-se em Imunologia pela University College de Londres e fez pós-doutoramento no King's College, também na capital britânica. É docente da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa desde 2005 e investigador externo do IGC desde 2007.