Os cientistas debruçam-se há décadas sobre um mistério que envolve as pradarias do deserto da Namíbia, no Sul de África (que também existem nas vizinhas Angola e África do Sul), e mais recentemente, no deserto ocidental da Austrália. No meio da vegetação rasteira formam-se círculos de solo virgem, que variam entre dois a 12 metros de diâmetro. São os chamados “círculos de fada” ou “anéis de fada”.

De acordo com o jornal espanhol El País, os investigadores já atribuíram a formação de tais círculos a formigas, térmitas, à ação tóxica de uma planta chamada Euphorbia gummifera e até à infiltração natural de gases. Mas agora um grupo de cientistas questiona o papel tanto dos insetos quanto das ervas tóxicas e coloca uma nova hipótese: a de que essas formações seguem padrões naturais já estudados pelo matemático Alan Turing.

 

De acordo com os especialistas, vistos do alto, duas coisas logo chamam a atenção nos “círculos de fadas”: por um lado, a forma circular desses espaços e, por outro, o padrão hexagonal que os círculos formam entre si. Estas formas geométricas encontradas na Austrália e em África reforçam a teoria da formação de padrões naturais.

Os cientistas apostam agora na auto-organização, um mecanismo biológico exposto por Alan Turing em 1952. De acordo com um artigo publicado no PNAS, esta equipa, formada por cientistas australianos, alemães e israelitas, encontrou novos “círculos de fadas” num ecossistema muito parecido com o da Namíbia, mas a mais de 10 mil quilómetros da costa africana.

Nos arredores da aldeia mineira de Newman, na região australiana de Pilbara, os cientistas encontraram grandes extensões de vegetação rasteira salpicadas de círculos semelhantes aos da Namíbia. Mas não encontraram quase nada de térmitas nem vestígios de gás subterrâneo, e ali tampouco existe a E. gummifera. Mais intrigante ainda, como no caso namíbio: cada círculo australiano possui outros seis mais próximos que formam um hexágono à sua volta.

“Os nossos resultados demonstram uma notável congruência entre os padrões dos círculos de fadas australianos e namíbios”, escrevem os autores do estudo.

Para eles, a interação entre a água e a vegetação é que cria um padrão tão próprio. Concretamente, os autores comprovaram que o solo dessas clareiras é rico em argila, enquanto que nas áreas onde há cobertura vegetal ele é mais poroso. Debaixo de chuva, a água foi arrastando consigo os materiais hidrófilos para as bordas, deixando para trás a argila. Os dois elementos, água e vegetação, desenvolvem-se dentro de um equilíbrio instável que gera as formas geométricas.

“O interessante no caso dos círculos de fadas é que eles apresentam uma grande regularidade e homogeneidade, inclusive em áreas de grande extensão, mas aparecem numa faixa muito estreita de chuvas”, afirma o principal autor do estudo, Stephan Getzin.

Para este biólogo do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental de Leipzig, na Alemanha, esse padrão é produto da disputa pela água.

“Durante muito tempo, os biólogos não se sentiam convencidos pela ideia de que as plantas das zonas áridas pudessem auto-organizar-se, já que os princípios teóricos desse processo se baseiam na Física”, acrescenta.

A ideia dessa auto-organização foi levantada por Alan Turing num dos últimos trabalhos. A base química da Morfogénese, escrito pelo matemático pouco antes de ter morrido, expõe como se dá o surgimento de padrões e estruturas nos sistemas naturais, desde um embrião até as listras de uma zebra. Muitos anos depois, essas ideias originaram a teoria da formação de padrões, confirmada em diversas oportunidades. Em 2015, por exemplo, cientistas japoneses descobriram que os círculos do deserto da Namíbia tinham padrões semelhantes ao das células da pele.

Mas há um detalhe que dificulta a comparação entre as duas concentrações de círculos de fadas. Embora nos dois casos haja ecossistemas semelhantes, aridez e escassez de água, ambos chegam ao mesmo resultado por meio de mecanismos diametralmente opostos.

“Enquanto os solos arenosos das clareiras dos círculos de fadas da Namíbia dispõem de uma grande capacidade de infiltração e armazenamento de água da chuva, os círculos australianos caracterizam-se pelo contrário: uma cobertura rica em argila que quase repele a água e não permite a infiltração de água da chuva”, afirma ao El País Norbert Jürgens.

 

O biólogo da Universidade de Hamburgo, que em 2013 mostrou que foram as térmitas que criaram esses círculos, defende que, sem aquele contributo hídrico, a vegetação não tem como prosperar.

Para o biólogo alemão, que conversou com o El País diretamente no deserto da Namíbia, o trabalho dos colegas é notável e a teoria da formação de padrões, muito interessante, mas talvez pouco fiável.

“Se o modelo de auto-organização fosse correto, deveria ser algo generalizado e haveria círculos de terra nua no mundo inteiro”, afirma.

 

Para o biólogo, a resposta para esse mistério continua a ser a ação das térmitas.