O levantamento das restrições ao financiamento federal da investigação com células estaminais embrionárias nos Estados Unidos, decidida pelo presidente Barack Obama, vai reforçar claramente a actividade científica nesta área, disse o especialista português Rui Reis à agência Lusa.

No cumprimento de uma promessa eleitoral, o presidente norte-americano anuncia esta segunda-feira o fim da proibição de financiamentos públicos federais à investigação com células obtidas a partir de embriões humanos, decidida pela Administração do presidente George W. Bush a 9 de Agosto de 2001, por motivos éticos.

«Nos Estados Unidos, que sempre foram líderes nessa área, essa proibição criou um atraso com implicações no mundo inteiro», disse à agência Lusa Rui Reis, investigador e presidente da Sociedade Portuguesa de Células Estaminais e Terapia Celular.

As células estaminais embrionárias têm um potencial enorme para tratar ou curar doenças por estarem na origem de todas as outras células, podendo por isso substituir eventualmente células danificadas ou doentes e permitir a reconstituição de tecidos ou órgãos.

Nos últimos oito anos, porém, só era possível utilizar nos EUA as linhas de células estaminais embrionárias desenvolvidas até 2001.

Ora, além de não ser permitido introduzir novas linhas de investigação, as desenvolvidas até 2001 estavam contaminadas com soros animais usados nas culturas e por isso nunca poderiam ser usadas em terapias, quando existia uma enorme expectativa de aplicações clínicas dessa pesquisa - recordou Rui Reis.

«Não pode haver terapias baseadas em células estaminais sem indústria, mas também não há indústria nesta área sem investigação de topo, que tem de ser feita nos melhores laboratórios e financiada com fundos federais nos EUA», sublinhou. «Essas duas coisas estão ligadas».

Na perspectiva deste cientista, que dirige o Grupo 3B`s (Biomateriais, Materiais Biodegradáveis e Biomiméticos) da Universidade do Minho, a decisão de Obama vai reforçar claramente a actividade científica nesta área, ao permitir que alguns dos melhores cientistas nesta área, que trabalham nos Estados Unidos, possam voltar a desenvolver de forma livre a sua investigação.

«Tornará também esta área de investigação mais global», assinalou, acrescentando esperar que «esse movimento terá uma influência internacional, nomeadamente a nível da União Europeia».

«Mais resultados»

Questionado sobre quando poderá haver respostas para as expectativas de aplicações terapêuticas com células estaminais para doenças graves como Alzheimer, Parkinson ou diabetes crónica, Rui Reis mostrou-se cauteloso e comparou o tempo desses eventuais desenvolvimentos ao que demoram os laboratórios a desenvolver um medicamento, que pode ir de dez a 20 anos.

«Vai haver muito mais resultados, mais publicações, mais patentes, mais indústria e muito mais probabilidades de chegarmos mais rapidamente às aplicações terapêuticas», augurou Rui Reis, em consequência da decisão do presidente Obama.

Não sendo possível por enquanto, em Portugal, fazer investigação com células estaminais embrionárias, os laboratórios nacionais, como os da Universidade do Minho, que dirige, trabalham com células adultas, como as da medula, da gordura ou do cordão umbilical.

«Há coisas que se conseguem fazer com esse tipo de células, como regenerar pele, regenerar osso, regenerar cartilagem, mas encontrar eventualmente soluções para doenças muito graves só será possível com investigação a partir de células estaminais embrionárias», concluiu.