Neurocientistas da Fundação Champalimaud e da universidade de Harvard traçaram os primeiros mapas de atividade dos neurónios em peixes zebra, um estudo que abre novas possibilidades para o conhecimento global do cérebro.

No estudo, publicado hoje pela revista científica Neuron, os investigadores descrevem aqueles que são os primeiros mapas de atividade neural do cérebro inteiro de um peixe zebra em ação, adianta a Fundação em comunicado.

Para Michael Orger, investigador principal do Programa de Neurociências da Fundação Champalimaud, «este estudo abre novas possibilidades para o estudo dos circuitos neurais no cérebro».

«Para percebermos como é que o cérebro funciona, é imperativo conseguirmos registar a atividade dos neurónios, e ao mesmo tempo relacionar essa atividade com o comportamento do animal», disse.

Com um cérebro muito mais pequeno do que o humano e completamente transparente, o peixe zebra possibilita aos investigadores uma visão global e completa do seu cérebro sem métodos invasivos, mas permite ver também o que está a acontecer em cada neurónio individualmente.

«O cérebro[do peixe zebra] está estruturado de forma muito semelhante ao nosso, tem muitas das mesmas estruturas, mas é mais pequeno e simples», adiantou Michael Orger.

Michael Orger explicou que os atlas agora traçados são baseados não na anatomia do cérebro, mas nas funções de cada célula ou conjunto de células.

«Podemos ver onde estão as células que determinam, por exemplo, a posição dos olhos[...] ou que células estão a produzir movimento», disse.

«É uma nova perspetiva na análise do cérebro porque conseguimos ver múltiplas áreas do cérebro, sem perder a resolução do que as células individuais estão a fazer», acrescentou.

Os métodos disponíveis permitiam apenas o registo da atividade de uma pequena parcela dos neurónios existentes no cérebro, mas «agora, conseguimos registar a atividade neural de todo o cérebro de um peixe zebra, que tem cerca de cem mil neurónios, enquanto monitorizamos os movimentos deste animal».

Cláudia Feierstein, investigadora a trabalhar no grupo de Michael Orger, explicou que «através da observação do cérebro, enquanto o peixe segue sinais visuais rotativos com movimentos dos olhos e da cauda», foi possível «não só identificar estruturas específicas no cérebro que estão na base destes comportamentos, como também perceber como é que diferentes padrões de atividade neural refletem aspetos distintos do processamento de informação sensorial e motora».

A partir de agora, deixa de ser necessário juntar registos provenientes de diferentes peixes e passa a ser possível registar a atividade neural do cérebro inteiro de um único peixe.

«Podemos finalmente falar de mapas de atividade neural e, por exemplo, comparar quão semelhantes são os circuitos neurais de peixes diferentes», sublinhou Michael Orger.

Os resultados deste estudo revelaram ainda que o circuito composto pelos neurónios que intervêm em simples comportamentos visuais e motores encontra-se distribuído por todo o cérebro, num padrão estereotipado quando comparado entre peixes diferentes.

Para Ruben Português, investigador em Harvard e coautor deste trabalho, «ao identificar uma determinada atividade neural numa região específica do cérebro de um peixe, conseguimos olhar para o cérebro de um outro peixe, para a mesma região e encontrar neurónios com a mesma atividade neural».