O porquê de não conseguirmos fazer cócegas a nós próprios é algo que suscita curiosidade, especialmente na comunidade científica. 

Ser tocado ou tocar é bastante diferente e de acordo com George Van Doorn, da Universidade de Monash, na Austrália, «isso leva a questões maiores relativas à consciência e auto-consciência, quem somos».

«As cócegas são um bom exemplo porque ilustram bem o contraste entre a sensação despertada por outros, e a nossa incapacidade de o fazer a nós próprios», defende Jennifer Windt da Universidade Johannes Gutenberg de Mainz, na Alemanha.

Por esta razão, os estudiosos tentaram superar as barreiras impostas pelo cérebro, em laboratório, e fazer com que as pessoas conseguissem despertar em si próprias esta sensação, que pode provocar riso ou movimentos bruscos.

Sarah-Jayne Blakemore, da University College London, foi das primeiras pessoas a investigar a forma como o cérebro toma de modo imediato este tipo de decisões sobre o «eu» e os «outros». Para tal registou a atividade cerebral dos participantes quando faziam cócegas na própria mão, e quando eram os outros a fazê-lo.

Com este estudo concluiu que o cerebelo, que governa os movimentos, antevê as ações que fazemos e neutraliza os reflexos.

Procurando ultrapassar esta barreira, desenhou uma máquina que reproduz os movimentos com algum atraso temporal, e observou que quanto maior o atraso, maior a intensidade das sensações despertadas, dado que as previsões do cerebelo já não coincidem com a altura em que sentimos.

O que não se previa com este estudo era que poderiam levantar questões pertinentes sobre o futuro da inteligência computadorizada. Robert Provine, da Universidade de Maryland, em Baltimore, defende até que as «auto-cócegas» podem revolucionar a inteligência artificial.

«O desenvolvimento de um algoritmo semelhante [ao do nosso cérebro] pode conduzir a que robôs 'com cócegas' tenham a capacidade de distinguir tocar de ser tocado», defendendo que este facto pode conduzir a uma construção computadorizada da personalidade.