O Presidente da República, Cavaco Silva, defendeu hoje que o setor privado não acompanhou o setor público no esforço de investimento em ciência e inovação, tendo as grandes empresas permanecido aquém do que «seria recomendável».

Na intervenção de abertura da conferência «The Future of Europe is Science», promovida pela Comissão Europeia, na Fundação Champalimaud, em Lisboa, Cavaco Silva apelou também a que se tire «melhor partido» do acesso a fundos e «lamentou a experiência menos positiva do 7º programa quadro».

«De facto, somos relativamente bons a produzir ciência, mas ainda não somos tão bons a transformar essa ciência em inovação. É aqui, pois, que reside o grande desafio e é aqui que devemos concentrar o maior dos nossos esforços, até porque tenho a certeza de que podemos ser bem-sucedidos», afirmou o Chefe de Estado.

Para Cavaco Silva, «nem tudo correu bem no percurso realizado em Portugal no caminho da ciência, desde logo, o sector privado não acompanhou, em idêntica medida, o sector público no esforço de investimento que era necessário fazer».

«As empresas, incluindo as grandes empresas, permaneceram aquém do que seria recomendável no que toca ao financiamento à investigação e desenvolvimento, o que não permitiu que o conhecimento científico irradiasse, tanto quanto se pretenderia, para fora dos muros da academia, isto é, para a sociedade portuguesa no seu conjunto», defendeu.

De acordo com o Presidente da República, «há que saber tirar melhor partido das possibilidades de acesso direto aos fundos internacionais e europeus orientados para a investigação e desenvolvimento, como é o caso, em especial, do Programa Horizonte 2020».

Cavaco quer «que não se repita a experiência menos positiva do 7º Programa Quadro, onde apenas nos últimos dois anos» Portugal revelou «capacidade e dinamismo na captação de financiamento».

«Temos, ao mesmo tempo, um importante caminho a percorrer na aproximação entre as instituições do sistema universitário e cientifico e o nosso tecido económico e social, na valorização do conhecimento e da tecnologia produzidos nas universidades, e no desenho de incentivos destinados a aumentar o volume de parcerias entre as universidades, os seus centros de investigação, e as empresas», sustentou.

«Não deixa de ser revelador que, em Portugal, menos de 5 por cento dos doutorados trabalhem na economia, em empresas, quando na Bélgica, na Holanda ou na Dinamarca esses números sobem acima de 33 por cento», ilustrou.

O Chefe de Estado sublinhou que «o propósito não é que as universidades se transformem em empresas, nem que as empresas se transformem em universidades, mas que os muros do desconhecimento entre umas e outras se desmoronem e que se gere uma atmosfera propiciadora de relações interativas e até de relações mais informais entre empresas e universidades».

«Ainda do lado das universidades, é necessário formar mais técnicos e não nos limitarmos a formar cientistas. Se olharmos, por exemplo, ao campo das ciências do mar, que tanto interessam a Portugal, verificamos que o número de cientistas, em relação ao número de técnicos que os assistem na operação de veículos, embarcações, máquinas e outros equipamentos tecnológicos, é muito superior à média dos países europeus mais inovadores no domínio do conhecimento e tecnologias do mar», argumentou.

Cavaco Silva considerou que Portugal tem que lutar nos próximos anos «ultrapassar o estatuto de inovadores moderados», se quiser «conciliar os objetivos de crescimento económico sustentável e de criação de emprego com os requisitos de disciplina orçamental e financeira».