Uma equipa internacional, liderada por investigadores da Universidade de Coimbra (UC), está a desenvolver um método pioneiro de “desqueima” de ossos para tornar possível a caracterização biológica rigorosa de vítimas com base nos restos mortais queimados.

Investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologia da UC lideram uma equipa internacional que está a desenvolver “um método pioneiro a nível mundial” para tornar possível “a caracterização biológica rigorosa de vítimas desconhecidas, com base nos seus restos mortais queimados, em situações complexas como acidentes de avião ou ataques terroristas”, anunciou hoje a UC.

Quando os ossos são queimados, “a sua estrutura e dimensão são alteradas, tornando difícil a tarefa de identificar sexo, idade e estatura”, explica David Gonçalves, do Centro de Investigação em Antropologia da Saúde (CIAS).

“Essas informações podem ser importantes para estabelecer a identificação positiva de uma vítima desconhecida”, exemplifica o especialista em ossos, adiantado que, para tentar ultrapassar as dificuldades destes casos, a equipa de peritos é também integrada por Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho, da Unidade de I&D ‘Química-Física Molecular’, que “utilizam luz e feixes de partículas de alta energia para estudar estruturas biológicas a nível molecular”.

A estes especialistas juntaram-se mais três investigadores, dois deles do Reino Unido, “tendo avançado para um método que usa feixes de neutrões para avaliar as mudanças ocorridas quando os ossos são submetidos a processos de queima”, acrescenta a UC.

As designadas técnicas de espetroscopia vibracional fornecem informação impossível de obter por outras vias.

“Com recurso a lasers, feixes de neutrões e radiação de infravermelho, conseguimos avaliar a estrutura submicroscópica do osso, ou seja, ver como compostos seus constituintes estão organizados, permitindo saber, por exemplo, quanto tempo esteve exposto a temperaturas elevadas, que tipo de explosivo foi usado...”, esclarecem Maria Paula Marques e Luís Batista de Carvalho.


A equipa de investigadores pretende, na prática, obter um “fator de correção das dimensões alteradas por processos de queima, permitindo rapidamente encontrar as características e tamanho originais dos ossos”.

Trata-se, afinal, de “desqueimar” o esqueleto, sintetiza.

As primeiras experiências realizadas com o feixe de neutrões do Laboratório de Investigação ISIS – Harwell Campus (Science & Technology Facilities Council, Reino Unido) em amostras de ossos humanos indicam que o método é promissor, refere a UC.

Se tudo correr como previsto, dentro de três a quatro anos, os cientistas forenses e bioarqueólogos terão resolvido um dos seus grandes problemas, pois passarão a dispor de “uma ferramenta fiável, rápida e de baixo custo para avaliar as mudanças ocorridas nos ossos queimados”, afirma David Gonçalves.

“O problema dos métodos métricos que usamos atualmente para construir o perfil biológico é o seu grau de fiabilidade, que é baixo.”

Apesar de “ainda ter muito trabalho pela frente”, a equipa de investigadores está confiante em obter um instrumento de correção pioneiro, que terá um forte impacto em múltiplos cenários, “quer em contexto arqueológico, quer em contexto forense, nomeadamente em situações de crime, de terrorismo e acidente, entre outros”, conclui David Gonçalves.