O telemóvel deixou de ser um aparelho que apenas faz e recebe telefonemas. Com as novas funcionalidades que as aplicações proporcionam, o equipamento eletrónico já é considerado por muitos como uma extensão do corpo humano, requisitado a qualquer momento, seja em casa, no trabalho ou em momentos de lazer. Mas será que os smartphones e os tablets podem ajudar a combater distúrbios de ansiedade? De fobias a ataques de pânico, os transtornos de ansiedade podem causar grandes perturbações à vida dos doentes. As aplicações em dispositivos móveis podem oferecer uma solução?

O psiquiatra Russell Green conta à BBC News que costumava ficar aterrorizado quando via uma aranha. A aracnofobia, o medo exagerado de aranhas, de Russell Green é tão grave que até mesmo a simples imagem de uma é o suficiente para o assustar. O psiquiatra decidiu, por isso, encontrar uma forma de lidar com o problema. Russell Green criou a Phobia Free, uma aplicação que usa a técnica de dessensibilização sistemática, um método que lentamente coloca o indivíduo em contacto com o objeto da fobia.

Os utilizadores da app começam por fazer jogos com aranhas de desenhos animados, que primeiro se apresentam bonitas e inofensivas, mas que gradualmente se tornam mais realistas. Um dos primeiros jogos consiste em esconder uma aranha num chinelo enquanto alguém está a usar um aspirador. Mais para a frente, o utilizador tem de acalmar e ajudar uma pessoa mordida por uma tarântula. Por fim, é confrontado com uma imagem gráfica da criatura sobreposta numa fotografia de uma tarântula verdadeira.

Recuperar o fôlego

De acordo com a BBC, outros pesquisadores estão a criar aplicações para os ataques de pânico. O programador informático Simon Fox teve ataques de pânico diários durante seis meses, até decidir consultar um psiquiatra, que lhe ensinou técnicas de enfrentamento, incluindo exercícios de respiração.

Agora, Simon Fox está a criar Flowy, uma aplicação que visa ensinar outros a evitar a hiperventilação através da respiração diafragmática. A aplicação utiliza enigmas que envolvem gatinhos e robôs, e incentiva os utilizadores a tocarem no ecrã quando inspiram e a levantarem o dedo quando expiram.

Contacto humano vs. anonimato

Alguns especialistas mostram-se preocupados com a ideia de as aplicações anti-ansiedade estarem a ser usadas como um tratamento autónomo. A psicóloga Elizabeth Gray, alerta que, mesmo que as apps se revelem eficazes a par de formas mais tradicionais de terapia, elas não devem ser vistas como substitutas dessas mesmas terapias. «Sem terapia, não acho que a ansiedade fique curada», defende.

Elizabeth Gray acrescenta que as fobias devem ser superadas por meio da identificação e da análise de causas subjacentes e explica que esse trabalho requer um terapeuta treinado. «A terapia é sobre as relações humanas. Na visão de todos os terapeutas é o que cura», afirma. «As aplicações não são um substituto para as relações humanas», conclui.

Mesmo assim, alguns acreditam que a estreita relação que a maioria das pessoas tem com os dispositivos móveis lhes confere um potencial anti-ansiedade. O psicólogo Phil Topham, pesquisador da Universidade Western England, lidera a equipa que desenvolveu o Sam, uma aplicação de «autoajuda para a gestão de ansiedade».

A app oferece conselhos de auto-tratamento, permite que os utilizadores façam «login» dos estados mentais e físicos numa variedade de ecrãs, e permite ainda a partilha de experiências de forma anónima usando o recurso «cloud social».

«Há muita vergonha relacionada com a ansiedade, com o não ser capaz de lidar», sublinha Phil Topham. Uma aplicação móvel é um dispositivo muito particular. Você não está a expor a sua ansiedade», remata.