Pode estar para breve o primeiro tratamento para ajudar a prevenir reações alérgicas graves aos amendoins. Uma empresa com sede na Califórnia, divulgou, na terça-feira, que cápsulas diárias de amendoim em pó ajudaram crianças a desenvolver tolerância a este fruto seco, num estudo levado a cabo nos Estados Unidos.

Milhões de crianças são alérgicas a amendoins e algumas podem ter reações fatais se a eles forem expostas de forma acidental. Os médicos testaram doses diárias de amendoim, contidas numa cápsula e espalhadas sobre os alimentos, administrando quantidades muito pequenas, de modo a aumentar gradualmente a tolerância ao fruto seco.

De acordo com a Associated Press, a empresa Aimmune Therapeutics revelou que 67% das crianças que participaram no tratamento experimental conseguiram tolerar o equivalente a cerca de dois amendoins no final do estudo, em comparação com apenas 4% de outras crianças a quem foi administrado um placebo.

Mas os investigadores deixam um aviso: não deve fazer a experiência em casa.

“É potencialmente perigoso", alerta Stacie Jones, especialista em Alergologia da Universidade de Arkansas. "Está em investigação. Tem de ser feito num ambiente muito seguro para garantir que as crianças possam ser tratadas de imediato se ocorrerem reações adversas”, sublinha.

Stacie Jones liderou o estudo, é consultora da empresa e divulgará os resultados durante uma conferência que terá lugar em março. Os resultados ainda não foram analisados por especialistas independentes.

O estudo envolveu cerca de 500 crianças, com idades compreendidas entre os 4 e os 17 anos, que sofrem de alergias tão graves que tiveram reações adversas a apenas um décimo de um amendoim. Algumas crianças receberam cápsulas de amendoim em pó, enquanto a outras foi dado um placebo: durante seis meses aumentaram gradualmente a quantidade administrada e depois continuaram a consumir essa quantidade final por mais seis meses. Até o estudo terminar, nem os participantes nem os médicos sabiam quem estava a tomar o quê.

Cerca de 20% das crianças que tomaram o amendoim em pó abandonaram o tratamento experimental, 12% devido a reações adversas ou a outros problemas.

O produto mostrou "uma boa segurança geral", defende Stacie Jones.

É emocionante", afirma por sua vez Stacy Dorris, da Universidade Vanderbilt, que não teve qualquer participação no estudo. "É uma forma de potencialmente proteger as pessoas que são alérgicas de terem uma reação grave ou mesmo fatal. Mas não é uma cura ... não sabemos o que aconteceria se elas parassem ou interrompessem o ‘tratamento’", realça.

Andrew Bird, alergologista do centro médico UT Southwestern, em Dallas, também é consultor da Aimmune Therapeutics e teve pacientes a participar no estudo.

"O tratamento não permite que as crianças comam amendoins como se não tivessem alergia, mas a investigação sugere que podem vir a tolerar pelo menos um amendoim, o que deve proteger 95% delas de uma reação adversa se estiverem expostas a amendoim", explica o especialista.

A Aimmune Therapeutics espera conseguir, no final deste ano, a aprovação para o tratamento, por parte da U.S. Food and Drug Administration, o regulador norte-americano do medicamento, e na Europa no início de 2019.