Pesquisas realizadas nos arquivos portugueses e alemães demonstram que «Portugal foi muito pouco neutral» nas relações que manteve ao nível científico com a Alemanha, que influenciou positiva e negativamente o país durante o Salazarismo.

Em declarações à Lusa, o coordenador do projeto intitulado «O Poder da Ciência. Ciência Alemã em Portugal (1933-45)», Fernando Clara, do Instituto de História Contemporânea, afirmou que a Alemanha era um país «muito atrativo» para quem trabalhava na área científica no século XIX, mas na sua relação com Portugal tinha um objetivo: económico.

«Nestas áreas científicas, o que se nota e mesmo os testemunhos da época dizem que há uma clara preferência (de Portugal) por estes contactos com cientistas alemães, por oposição ao contacto com cientistas franceses, ingleses», frisou Fernando Clara.

Durante a Segunda Guerra Mundial, Salazar decidiu que Portugal assumiria um posicionamento neutral face aos dois blocos militares envolvidos no conflito.

Mas, as pesquisas sobre o relacionamento luso-alemão nas áreas científicas, académica e cultural, realizadas pelos investigadores da Universidade Nova de Lisboa apontam agora para alguns resultados «inesperados», nomeadamente «a influência alemã sob várias formas».

«O material que encontramos é absolutamente brutal. Algum era inesperado», assegurou à Lusa Fernando Clara sobre o cruzamento de informações das listas de instituições, pessoas e eventos desta «espécie de teia» da relação luso-alemã da época.

Segundo o académico, uma das descobertas dizem respeito a «uma influência grande da Escola Médica Alemã naquela fase, às vezes, para o pior, ou melhor».

«O melhor é o modo como a medicina portuguesa recebe refugiados judeus alemães, que são pessoas bastante importantes também no quadro da medicina portuguesa daquela época e são acolhidos depois de terem sido expulsos da Alemanha», exemplificou Fernando Clara.

Uma das justificações encontradas pelos investigadores portugueses para a posição «muito pouco neutral» de Portugal «tem a ver, por um lado, com o fato de muita gente nestas áreas das ciências ter estudado na Alemanha», um país que no século XIX «tinha a fama mundial de potência científica».

Tal é o caso dos médicos Pulido Valente e Fernando Fonseca, que estudaram na Alemanha, cujos nomes foram atribuídos mais tarde a dois hospitais em Lisboa.

O posicionamento português prende-se, por outro lado, com o fato de haver em Portugal «muita gente em posição chave e que dá preferência a Alemanha», como, por exemplo, Gustavo Cordeiro, que enquanto ministro da Instrução Pública tornou o alemão obrigatório nas escolas, indicou o historiador.

«Em 1937/8, a Universidade de Coimbra fez 400 anos, e o jornal Século publica uma fotografia de uma delegação alemã, composta por 11 pessoas. Dias antes, tinha publicado uma fotografia de primeira página das delegações francesa e britânica com duas pessoas, cada, e dias antes ainda publicou uma fotografia da delegação brasileira com uma pessoa», afirmou.

Apesar de, na ocasião, a Alemanha ter uma visão de superioridade, resultante da ideologia nazi, os vários documentos consultados pela equipa de investigadores demonstram que na relação com Portugal «a questão da raça era, normalmente, contornada», acrescentou Fernando Clara.

A «Alemanha tinha dois ou três interesses fundamentais, mas o primeiro dos interesses é o económico. Sempre. Aí Portugal é muito interessante para Alemanha, não só por causa das reservas de Volfrâmio», metal valioso que, durante a Segunda Guerra Mundial, teve um papel significativo nos negócios políticos entre os dois blocos antagónicos, assinalou.

Na altura, Portugal era o principal produtor europeu deste elemento químico, pelo que sofreu pressão dos dois blocos para fornecer às suas jazidas de minério de volframita.

Mas, «Salazar foi negociando por aqui e por ai», lembrou o investigador do Instituto de História Contemporânea.