O ex-vice-presidente norte-americano Al Gore apelou hoje em Lisboa a que não se confundam os Estados Unidos com o atual Presidente, Donald Trump, afirmando que no seu país há vontade de continuar a lutar contra as alterações climáticas.

"Vamos cumprir o nosso papel apesar de Donald J. Trump", declarou perante os aplausos de milhares de pessoas reunidas em Lisboa para fim da conferência tecnológica Websummit.

Al Gore considerou que houve uma "viragem histórica" com a assinatura do acordo de Paris de 2015 para limitar o aquecimento global, apesar de Trump ter declarado que os Estados Unidos se iriam retirar do compromisso.

O ex-vice-presidente tornado ativista e investidor pelo clima afirmou que pelas regras do acordo, "os Estados Unidos só poderão sair no dia a seguir à eleição presidencial de 2020" e manifestou-se confiante de que a vontade política maioritária no seu país não coincide com a do Presidente.

Indicando que energias renováveis como a solar estão a ficar cada vez mais baratas, Al Gore reconheceu que da parte dos setores do carvão, gás e petróleo há uma vontade de "paralisar" o caminho em direção às renováveis.

"Acumularam durante anos riqueza, poder político e conhecimentos", mas "chega de vez", declarou.

O planeta está à beira da "revolução da sustentabilidade", considerou, acreditando que esta chegará "com a dimensão da revolução industrial e a rapidez da revolução digital".

"Muitos dos que aqui estão já fazem uma diferença enorme", reconheceu, dirigindo-se a uma plateia em que destacou a geração jovem que cria empresas para "fazer bom dinheiro mas também para fazer avançar o mundo", para o que a tecnologia é uma aliada.

"É claro que temos que mudar, o que é que pensam? Não podemos condenar as gerações que aí vêm à degradação e ao desespero", defendeu.

O panorama, apontou, está à vista nas chuvas, furacões, incêndios florestais ou secas devastadoras, "como acontece em Portugal ou Espanha", e nas dezenas de milhões que estão à beira da fome ou que tiveram que se deslocar por causa de fenómenos climáticos.

Gore afirmou querer "recrutar" a audiência de milhares para ser "parte da solução" para travar a "colisão entre a civilização humana e a natureza".

Recordando lutas históricas como as travadas pelo fim da escravatura, pelo direito de voto das mulheres ou dos direitos dos homossexuais, afirmou que no fim, tudo se resumiu a uma escolha entre "o que está certo e o que está errado".

"Está tudo em jogo", garantiu, admitindo que há "quem caia no desespero porque pensa que não há vontade de mudar" e declarando que "a vontade também é um recurso renovável".

Antes, o primeiro-ministro, António Costa e Al Gore discutiram a forma mais eficaz para Portugal cumprir o seu roteiro para a descarbonização da economia, sobretudo no domínio da mobilidade.

Este foi um dos principais temas que, segundo António Costa, foi abordado no seu encontro com Al Gore, que durou cerca de 30 minutos e que se realizou pouco antes da cerimónia de encerramento da Web Summit, no Parque das Nações, em Lisboa.

"Tive um encontro muito interessante e muito inspirador, onde foram trocados pontos de vista sobre o roteiro português para a descarbonização e sobre as metas que o país tem. É sempre bom ouvir alguém com a experiência de Al Gore sobre a melhor forma de Portugal percorrer o seu caminho ambicioso em matéria de descarbonização da mobilidade e de fomento da mobilidade elétrica", declarou o líder do executivo, que tinha ao seu lado o ministro do Ambiente, João Pedro Matos Fernandes, que também esteve presente na reunião com o antigo vice-presidente dos Estados Unidos.

Perante os jornalistas, António Costa frisou que Portugal "quer incrementar cada vez mais a utilização das energias renováveis, não só ao nível da produção, como também no que respeita à sua utilização".

"Foi também abordado o papel de Portugal ao nível europeu em matéria de interconexão com o resto do continente", completou o primeiro-ministro, antes de deixar uma crítica indireta à política ambiental seguida no país na última década.

"Esta área é felizmente uma das que coloca Portugal numa posição de vanguarda. Portugal deve continuar a fazer um esforço para se manter nessa vanguarda, recuperando até algum atraso ao nível da mobilidade elétrica que os últimos dez anos introduziram", disse.