Os organizadores de uma conferência internacional sobre modificações do genoma humano concluíram que a pesquisa fundamental e pré-clínica deverá prosseguir ativamente, tendo em conta o seu potencial médico, mas com supervisão legal e ética.

Caso as células embrionárias ou reprodutoras humanas tenham o seu ADN modificado, “elas não podem, em nenhuma situação, ser utilizadas por uma grávida”, tal como já o proíbem vários países, declara-se num comunicado publicado esta quinta-feira pela Academia Americana das Ciências e citado pela agência noticiosa AFP.

A Academia é a organizadora, em conjunto com as suas homólogas britânica e chinesa, da conferência internacional que decorreu esta semana em Washington, nos Estados Unidos, e na qual participaram centenas de cientistas de vinte países.

“Seria irresponsável neste momento proceder a qualquer utilização clínica dessa tecnologia de edição de células reprodutivas humanas, sobretudo porque os problemas de segurança e eficácia não foram resolvidos com uma adequada dos riscos, dos potenciais benefícios e das alternativas”, escreveram os cientistas, entre os quais David Baltimore, laureado com o Nobel da Medicina, e que presidiu à conferência internacional.

Os cientistas sublinham a dificuldade de prever os efeitos nefastos de uma modificação do ADN das células embrionárias, sublinhando o facto de que essas alterações permanentes seriam transmitidas às futuras gerações, alterando a evolução humana.

A técnica, capaz de corrigir genes defeituosos responsáveis por doenças hereditárias, e que pode também, potencialmente, melhorar as capacidades físicas e mentais, abrem a porta a “populações superiores” e podem exacerbar as desigualdades sociais, alertam os especialistas.

Contudo, os investigadores estimam que a utilização da técnica deve ser reavaliada regularmente.

Para os cientistas, a comunidade internacional deveria acordar o estabelecimento e a harmonização de regras de aplicação da técnica, de forma a desencorajar os usos inaceitáveis em nome do progresso na área da saúde.

As preocupações éticas em torno da nova técnica, muito eficaz e pouco dispendiosa, desenvolvida em 2012 e denominada CRISPR-Cas9, agudizaram-se depois do anúncio em abril por uma equipa de investigadores chinesa tinha conseguido alterar um gene defeituoso num embrião humano inviável.

Sobre a modificação genética de células somáticas, que não são transmissíveis, esta técnica tem numerosas aplicações clínicas promissoras, como, por exemplo, melhorar a capacidade do sistema imunitários combater células cancerígenas ou certas doenças incuráveis.

A Academia Americana das Ciências publicará um relatório sobre o tema dentro de um ano.