A morte de uma jovem de 22 anos poderá estar associada a uma das pílulas mais vendidas em Portugal: a pílula Yasmin, utilizada como contracetivo, mas também para o tratamento de acne.  Carolina Tendon morreu subitamente com uma embolia pulmonar.
 
O caso está a agitar a indústria farmacêutica e a preocupar milhares de mulheres. A família da vítima pondera processar o laboratório que comercializa a Yasmin.
 
Carolina era dançarina, ao mesmo tempo que se preparava para concluir o último ano de medicina veterinária em Évora. Era saudável, não fumava e não tinha nenhuma doença diagnosticada. Morreu subitamente, com uma embolia pulmonar.
 

«A minha irmã tinha um excelente relacionamento com a minha mãe. A minha mãe tinha sempre conhecimento de todos os passos que ela dava. E, debaixo deste choque, a minha mãe disse-me “Susana, foi a pílula que matou a carolina”», diz Susana Alves, irmã da jovem.

 

«Investigámos, procurámos saber mais. Recusámo-nos a aceitar a morte da Carolina como uma morte natural, porque de natural não tem nada. Era saudável, jovem, cheia de vida. Morreu subitamente porquê?», questiona.

 
A família nunca se conformou com o resultado simplista da autópsia, que confirmava apenas uma morte natural. As respostas chegaram quase um ano depois e eram a confirmação daquilo que há muito suspeitavam: a morte de Carolina podia estar associada à pílula que tomava – a pílula Yasmin, a chamada «pílula da nova geração».
 
Um documento confidencial a que a TVI teve acesso da unidade de farmacovigilância do Infarmed dá como possível que a morte de Carolina esteja associada a esta pílula. Um documento datado de 3 de dezembro de 2014 diz mesmo:
 

«A relação causal entre o medicamento suspeito e a reação adversa ao medicamento notificada foi classificada pelo perito clínico como possível, por se tratar de uma reação adversa descrita no resumo das características do medicamento e por ter uma relação temporal bem estabelecida».

 
«A família tinha conhecimento que a Carolina tomava esta pílula. Começou a tomar cerca de dois anos antes e recorreu a esta pílula como controlo do acne», relata a irmã.
 
Durante esses dois anos, acrescenta Susana Alves, Carolina não teve qualquer reação adversa «que não fosse comum a qualquer outra pílula»: «Alguns enjoos matinais, quebras de tensão. Nada que nos levasse a pensar que ela corria perigo de vida».
 
Não é a primeira vez que os perigos das pílulas de terceira e quarta geração estão associadas a mortes. No Canadá, suspeita-se que 23 mulheres tenham morrido depois de tomarem a pílula Yasmin.
 
Um estudo da agência norte-americana do medicamento, que abrangeu mais de 800 mil mulheres, concluiu que estes medicamentos aumentam o risco de coágulos sanguíneos em maior proporção que os contracetivos orais mais antigos. Não foi por acaso também que a agência do medicamento francesa chegou a suspender outra das pílulas comercializada pela Bayer, a Diane35, também da «nova geração», associada a quatro mortes por trombose venosa.
 
Só nos últimos quatro anos, foram vendidas em Portugal mais de 8700 mil embalagens de Yasmin, um medicamento que teoricamente obriga a receita médica, mas que em muitos dos casos é vendida livremente em qualquer farmácia.
 
A TVI tentou ouvir o Infarmed que não mostrou qualquer disponibilidade para dar uma entrevista. Limitando-se a dizer que nenhum medicamento está isento de risco e que no caso da Yasmin foram efetuados estudos europeus que concluíram que os benefícios são maiores que o risco.
 
Em Portugal há sete casos notificados no sistema de farmacovigilância relacionados com a pílula Yasmin, sendo um deles de morte. Na base de dados de vigilância europeia, só nos últimos quatro anos, há registo de 878 casos, 43 dos quais de morte.
 

«Está registado na base de doados. E agora? Para mim isso é muito pouco. A minha irmã era demasiado importante para mim para que a morte dela seja um número numa base de dados»

 
 A TVI tentou ouvir também a Bayer, o laboratório que comercializa esta pílula que não mostrou disponibilidade para dar uma entrevista, limitando-se, por mail, a dizer que o perfil de segurança dos contracetivos está devidamente testado com base em estudos clínicos.