O Hospital Curry Cabral, em Lisboa, tem 14 quartos de isolamento imediatamente disponíveis para receber eventuais casos de doentes infetados por vírus Ébola, mas mais dez poderão ser usados na «improvável» eventualidade de serem necessários.

«Temos 14 isolamentos respiratórios de pressão negativa neste sector e se houvesse necessidade - que não é provável, é pura especulação - de mais quartos teríamos noutro sector do serviço disponível mais dez quartos», disse à Lusa o diretor do serviço de infeciologia do hospital de referência em Lisboa para os casos de Ébola.

Trata-se de um corredor com 14 quartos, cada um deles com uma antecâmara de desinfeção e preparação dos profissionais de saúde, cuja porta de ligação ao quarto só se abre, quando a porta de ligação ao exterior, ao corredor, está fechada.

Os quartos têm cama, mesa, televisão e os equipamentos médicos necessários para assistir o doente, que pode levar consigo peças, como telemóvel, computador ou outros objetos pessoais.

«Os profissionais de saúde é que não podem levar nada para dentro do quarto, nem trazer nada lá de dentro», para evitar qualquer risco de contaminação, explicou Fernando Maltez.

No contacto com o doente, ou suspeito de ter a doença, os profissionais estão protegidos por um fato de isolamento, semelhante a um escafandro, que após a utilização é imediatamente destruído.

Trata-se de equipamentos de proteção individual «para agentes biológicos de grau de infecciosidade de nível 4», no qual se encaixa o vírus Ébola: um fato integral de cor amarela, descartável, impermeável, com capuz incorporado, uma capa azul clara que se coloca por cima do fato, óculos, viseira, touca, dois ou três pares de luvas e botas com perneiras que chegam ao joelho.

«É o equipamento que tem que se usar no contacto direto com doentes e que depois de utilizado é para descartar», sublinhou, especificando que este fato não dispõe de nenhum sistema de respiração interno, apenas uma máscara permeável, que é eficaz para este tipo de doença.

Quanto ao número de fatos disponíveis, Fernando Maltez disse serem os necessários para atuar de acordo com o número de doentes que ocorrerem, não sendo para já previsível que haja qualquer falta de fatos.

«Penso que há uma probabilidade de virmos a ter casos importados», uma «probabilidade real» e que «é tanto maior quanto mais prolongada for a duração da epidemia e quanto maior for a duração da epidemia não controlada» na Guiné-Conacri, na Libéria e na Serra Leoa.

Já sobre a possibilidade de haver uma disseminação epidémica em Portugal de casos de Ébola, o médico considera-a «muito pouco provável».

«Hoje a probabilidade de chegarem casos importados e depois haver o risco de transmissão, o risco é maior para os profissionais de saúde, como aconteceu um pouco por toda a Europa e também nos Estados Unidos, onde não há epidemias, há casos importados que originaram casos secundários», explicou.

Fernando Maltez salvaguardou que o maior risco de contágio a um profissional de saúde está no momento de despir o fato, que, apesar de obedecer a uma série de procedimentos de segurança já estabelecidos, é sempre complicado, pois qualquer contacto inadvertido com a pele pode ser fatal.

«Mas a realidade de hoje pode modificar-se e daqui por uma ou duas semanas estarmos confrontados com uma epidemia de grandes dimensões naqueles países, podemos inclusive estar confrontados com uma disseminação da epidemia a países de língua oficial portuguesa, onde aí naturalmente as conexões com o nosso país são maiores, onde a probabilidade de chegarem casos é maior e, portanto, o panorama em termos epidemiológicos pode modificar-se e fazer-se uma previsão diferente», disse.

Quanto ao «percurso» que deve ser seguido por um eventual doente é simples e, se for seguido corretamente, não tem motivos para falhar ou provocar o contágio de terceiros.

«Qualquer doente que venha de um país onde está presente a epidemia e que chegue ao nosso país com sintomas, ou que desenvolva esses sintomas no espaço de 21 dias após ter regressado, ou tenha tido contacto com algum doente que tenha estado infetado e tenha morrido, ou não, por via de doença por vírus de Ébola deve contactar a linha saúde pública [Saúde 24]».

Se os sintomas descritos por telefone configurarem um caso suspeito ou provável, é imediatamente validado pela Direção Geral da Saúde que enviará uma equipa médica que transportará o paciente para o hospital de referência, onde será encaminhado para um dos isolamentos.