O número de estudantes envolvidos em casos de bullying, em Portugal, é “muito superior” ao das estatísticas oficiais e pode ser superior a 240 mil, defendeu esta sexta-feira a investigadora Susana Carvalhosa.

A responsável, do Centro de Investigação e Intervenção Social do ISCTE-Instituto Universitário de Lisboa, falava hoje num seminário sobre “Estratégias e medidas de prevenção de bullying e do cyberbullying”, que decorreu em Lisboa.

“Os estudos indicam que um em cada cinco estudantes está envolvido diretamente em alguma situação de bullying”, os números dos serviços especializados são muito mais baixos e as estatísticas oficiais ainda mais, disse a investigadora.

E acrescentou: Dados de 2014, sobre a segurança na escola, indicam que os casos de bullying foram 1.446; se fizermos a conta a todos os alunos das escolas poderíamos dizer que temos 241.000 alunos (20 por cento do total) envolvidos nessas situações.

“Se for um em cada cinco há muitas crianças a precisar da nossa ajuda”, advertiu a investigadora e professora do Departamento de Psicologia Social e das Organizações, do ISCTE.

O bullying (situação de agressão, ameaça ou opressão praticada contra alguém), salientou a responsável, não acontece apenas em contexto escolar, mas também familiar, no trabalho, no bairro e até no país, porque “há países vítimas e países agressores”.

Perante mais de uma centena de participantes, Susana Carvalhosa explicou que, para que haja bullying, é preciso que haja uma intenção de provocar dano, que a ação se repita e que haja um desequilíbrio entre o agressor e a vítima. No mundo virtual, acrescentou, se alguém coloca, por exemplo, numa rede social, um vídeo humilhante, ainda que não coloque mais nenhum, é considerado cyberbullying, porque cada acesso ao vídeo reforça o comportamento agressor.

Baseando-se em investigações feitas pelo ISCTE, a responsável disse que a promoção da empatia leva a comportamentos de entreajuda, que os agressores têm por norma dificuldade em desenvolver empatia e que as vítimas “têm situações elevadas de ‘stress’”.

Começando por lembrar que o bullying não é um fenómeno recente, embora se fale muito mais nele nos últimos anos, a investigadora disse que se fez na Faculdade um estudo com jovens adultos (25 a 35 anos), a quem se perguntou se passaram por situações de bullying. “O estudo aponta para que os que disseram que foram vítimas têm hoje menos autoestima”.

“Se não atuarmos, podemos estar a criar indivíduos que em adultos sofrem de insegurança”, salientou.

Para ajudar a prevenir o bullying, o ISCTE e a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa estão a desenvolver um jogo para crianças chamado “StopBully”, que está ainda em construção e que estará disponível para telemóvel, computador e ‘tablet’.

Cátia Raminhos, da Faculdade de Ciências, e Maria de Jesus Candeias, do ISCTE, explicaram que a aplicação promove a empatia e destina-se a jovens, entre os 10 e os 12 anos, porque “os dados dizem que o pico de casos situa-se até aos 13 anos”.