Querer ver o telemóvel, aceder às mensagens, querer saber quem está a ligar-te, querer uma conta conjunta de Facebook, querer saber onde estás, com quem, a fazer o quê. Daí à expressão quero, posso e mando vai um passo pequeno. Esta é a realidade de muitas das relações de namoro na juventude (e na vida adulta).  Se és jovem, podes até nem te dar conta disso. Mas atenção: aquilo que te parece ser uma pequena exigência do teu namorado(a) pode ser um sinal de uma relação abusiva.

Temos alunos de 15 anos para quem é perfeitamente normal dar um estalo à namorada e levar um estalo do namorado. Nas primeiras ações de sensibilização que fiz fiquei chocada. Assusta-me ver estes miúdos tão mal informados e tão mal preparados para a vida. Os casos de violência no namoro estão a surgir aos poucos e cada vez mais”.

O desabafo é da psicóloga Ana Carvalho, do NAV - Núcleo de Atendimento às Vítimas de violência doméstica de Viseu, que lida muitos com casos de violência no namoro e casos de violência doméstica. Há pessoas com mais de 70 anos que lhe contam que já quando namoravam sofriam.

Veja também:

Logo na adolescência o companheiro(a) pode tornar-se num (potencial) agressor(a). E é por isso que é tão importante saber identificar os sinais. Nem tudo o que parece é. Quando nos apaixonamos, o outro parece maravilhoso. Mas com o tempo pode revelar-se.

Há muita violência psicológica, pontualmente agressão física. A violência social tem vindo a surgir cada vez mais, associada ao controlo e, claro, à violência psicológica”.

Controlar, dominar, ter poder

Há agressores com histórias familiares “completamente destrutivas e casos em que eles próprios  foram vítimas de violência doméstica”. O que fazem é uma “normalização de comportamentos”, replicam o que veem em casa. “Acham perfeitamente normal”.

Seja qual for o contexto familiar, isso não pode servir de desculpa do agressor, nem de culpabilização da vítima, sentindo que deve aguentar porque ele tem um historial familiar difícil.

As ações de sensibilização em escolas e na comunidade, promovidas por este núcleo, partem de como deve ser uma relação saudável, primeiro, para depois contrapor com o que é uma relação abusiva. Aí, é que muitos abrem os olhos e percebem que mergulharam nessa espiral, mesmo sem perceber.

Há três grandes palavras – controlar, dominar e ter poder sobre a outra pessoa. Manipular todos os passos, querer ver o telemóvel, aceder às mensagem, ver quem está a ligar, escrutinar a conta de Facebook, proibir de estar com os amigos A, B ou C”

Comportamentos que demonstram “insegurança” por parte do agressor ou da agressora, que tentam ser “proprietários da outra pessoa”.

Outros indícios

Há até quem sugira contas de Facebook conjuntas. Não é inocente. Esta psicóloga contou à TVI24 que, há dois anos, se deparou muito com esta situação entre namorados nas escolas. “Obviamente que é para controlar tudo. As raparigas achavam normal, sinal de que o rapaz as amava muito. Se tivessem conversas no chat com amigas a contar um segredo, ele iria ter acesso a tudo”. Estavam a “desvalorizar a amizade e a confiança”, até sem se aperceberem. Atualmente, esta situação já não é tão comum, até porque o Facebook está a deixar de ser a rede social preferida dos jovens, mas quando existe é outro dos sinais a ter em conta.

Outro é a tentativa de controlar o dinheiro da namorada ou do namorado. “Isso quer dizer que está a tentar chegar a algum lado”. Com recurso, muitas vezes, a ameaças.

Um estudo da UMAR - União de Mulheres Alternativa e Resposta mostra que os jovens veem como normal partilhar fotografias íntimas. “Tive o caso de uma miúda que acabou por ficar sem o cartão multibanco, porque o namorado ameaçou expor essa fotografia nas redes sociais”.

Redes sociais, um perigo

 

Pixabay

As redes sociais são mesmo uma dor de cabeça para as relações nos dias que correm. São cada vez mais as pessoas que sentem a necessidade de estar online e mostrar o que fazem e com quem estão. O ciúme ganha novos contornos.

Se já entre os adultos a insegurança e a desconfiança vêm ao de cima, a falta de maturidade e o tal controlo sobre o outro entre os mais novos dramatizam, porventura mais, as situações. Ou porque tiraram uma foto com um amigo e a publicaram; ou porque foram identificadas numa publicação, mesmo que de um tema trivial; ou porque estão a ter uma conversa com um amigo.

“Pode ser uma bomba-relógio para rebentar a qualquer momento. Na fase adulta, muitos dos casos que acompanho têm a ver com o Facebook”.

Como pode a vítima perceber que o é? E os pais?

Há semelhanças nos sinais das vítimas de violência doméstica e de bullying. Pessoas que passam ser muito fechadas, mais apáticas e depressivas, que deixam de estar com os amigos ou, estando, não participam nas conversas. Mudanças de comportamento a que os pais também podem estar atentos.

Na escola, Ana Carvalho dá outro exemplo: se um colega que faz educação física, mas repentinamente deixou de tomar banho, e se souberem que ele(a) namora, pode ser outro indício de que algo não está bem.

Veja também:

Os professores, diretores de turma e psicólogos escolares têm um papel fundamental e podem ajudar a reencaminhar estes casos para os núcleos de apoio a vítimas de violência no namoro.

Plano de segurança

De entre os casos que chegam ao Núcleo de Atendimento às Vítimas de Violência Doméstica de Viseu, há muitos em que não há logo apresentação de queixa à polícia. Vêm reencaminhados das escolas. No ano passado, contabilizaram 170 atendimentos.

A primeira consulta serve para fazer uma avaliação do risco e, dependendo dos casos, pode seguir-se acompanhamento psicológico.

“É traçado um plano de segurança, muitas vezes as pessoas não estão preparadas para apresentar queixa de imediato ou não querem fazer. Se ainda vão manter-se na relação, é preciso terem noção de que se devem proteger”, explica a mesma psicóloga.

 Traçamos um plano de modo a que a pessoa esteja preparada para sair da relação. Seja por vergonha, seja por medo, podem não o fazer logo. Têm medo, porque se calhar já sofreram ameaças. O medo paralisa qualquer um. O que fazemos é uma intervenção em crise, no aqui e agora, dando a informação sobre o que a pessoa precisa de fazer, mas está muito nas mãos dela. Nem sempre é fácil a vítima perceber que não vive uma relação normal, que tem de sair para ter paz de espírito”.

Quando conseguem libertar-se, a rutura deve ser feita:

  • em público, nunca escondidos em cantos
  • as rotinas normais devem ser alteradas (ir e voltar da escola por outros caminhos)
  • a vítima deve estar sempre acompanhada com amigos ou familiares
  • o melhor será mudar de número de telemóvel

O acompanhamento psicológico pode continuar, se a vítima assim o quiser, para ser feita uma monitorização.

Queixa à polícia

Violência no namoro é crime público. E desde sexta-feira que os homicídios cometidos em contexto de namoro podem ser homicídios qualificados. A Assembleia da República aprovou, por unanimidade, a alteração ao código penal que agrava a pena para este tipo de agressão. Para muitos, era a peça que faltava para condenar e tentar prevenir pela punição, este tipo de violência. 

Veja também:

Nem sempre as vítimas apresentam queixa. A nível nacional, uma em cada 10 já foi alvo de ameaças de morte. Não apresentam queixa, porque têm medo das consequências, de o agressor se tornar ainda mais violento. A psicóloga Ana Carvalho assume que o agressor pode ter várias reações, mas precisamente por isso é que é traçado o tal plano de segurança.

Em Viseu, “muitas vítimas não apresentaram queixa por medo dessas retaliações, mas a situação foi monitorizada e acabou por correr bem. Outras apresentaram e não houve retaliações, mas não podemos prever”.

A proteção das vítimas é essencial. “A lei não é perfeita e, muitas vezes, é a vítima que no limite tem de sair de casa e fugir. É um facto, mas é proteção”. Para as situações mais complicadas existem casas de acolhimento. Para as outras, tenta-se uma solução na rede familiar.

Naquela cidade, a polícia costuma passar mais vezes nas zonas frequentadas pelo agressor e pela vítima. As vítimas também podem pedir tele-assistência. Andam com um dispositivo que, numa situação de emergência, acionam para receber socorro. O problema é que, às vezes, demora até terem esse dispositivo em mãos. "Temos outras redes diponíveis no imediato", garante a psicóloga.

As estratégias estão lá. São colocadas em prática. A preocupação, essa, é "constante". Mas há saídas. Há saídas.

Veja também: