O homem acusado do homicídio da ex-companheira em Monte Abraão, Sintra, admitiu esta quarta-feira na primeira audiência de julgamento que atingiu a vítima com uma facada, na sequência de uma discussão, negando que a andasse a perseguir.

O arguido, de 45 anos, tradutor de profissão, está acusado da prática do crime de homicídio qualificado pela morte da ex-companheira, de 41 anos, encontrada morta, a 2 de março, com uma ferida de arma branca no abdómen, na banheira da sua residência.

«Era ela que me oprimia e na realidade era eu a vítima», afirmou o homem, durante a leitura dos factos constantes na acusação efetuada pela juíza presidente do coletivo, em relação à perseguição que terá movido contra a ex-companheira desde a separação, em outubro de 2010.


A separação ocorreu após o arguido ter confrontado a vítima com diversas relações sexuais com outros homens, de que teve conhecimento através de telefonemas que ouviu e de um programa informático que instalou nos seus computadores e no da companheira.

«Sou adepto das relações abertas e poligâmicas», afirmou o detido, para justificar a alegada ausência de ciúmes pelos relacionamentos da vítima, antes e depois da separação.


O arguido responsabilizou a ex-companheira por ter feito passar a imagem aos pais de que "era um monstro" e disse que esteve seis meses sem ver o filho, de cinco anos, situação que se alterou quando emprestou dinheiro à vítima para alugar um apartamento em Monte Abraão.

No dia da morte, o homem contou que deixou o filho em casa e foi ter com a ex-companheira para falarem sobre o reatar da relação, mas que durante uma discussão mais acesa lhe espetou uma faca no abdómen, que antes tinha sido empunhada pela mulher para o mandar sair de casa.

«Fiz um gesto inconsciente», alegou o arguido, acrescentando que ficou «em choque pelo que tinha feito» e que a ex-companheira desfaleceu e ficou caída no chão do apartamento na subcave do prédio na periferia de Lisboa.


O corpo da vítima foi descoberto na manhã seguinte pela empregada doméstica, vestido e dentro da banheira com água, tingida do sangue da ferida no abdómen.

A Polícia Judiciária deteve dias depois o ex-companheiro da vítima, apesar de este alegar que passou o período em que ocorreu a morte com o filho de ambos.

O arguido, que ficou em prisão preventiva por decisão do juiz de instrução criminal, é ainda suspeito da morte e ocultação do corpo do irmão da vítima, que desapareceu três meses antes, num processo de investigação autónomo.

«Depois da separação deles, ele perseguia-a sempre. Andava sempre a persegui-la, [ela] fazia sempre queixas à polícia, que não fazia nada. O que ele está a contar é tudo mentira», disse, no intervalo do depoimento do arguido, Octávio Pereira, tio da vítima.


O familiar acusou o arguido de «estar obcecado» pela sobrinha e andar sempre a vigiá-la, acrescentando que o detido ainda não revelou a localização do corpo do sobrinho desaparecido, por estar a tentar «negociar» a entrega do filho à família.

«Essa é uma outra versão, existem documentos até nos autos de violência doméstica, que comprovam para já antecedentes», de tipo stalking (perseguição persistente), afirmou Maria Paula Andrade, que representa os pais da vítima.

No âmbito do julgamento no Tribunal de Lisboa Oeste, a família da vítima reclama uma indeminização de cerda de 180.000 euros pelos danos causados com a morte da antiga profissional na área da comunicação.