Um homem acusado de ter baleado a ex-companheira, à frente das duas filhas menores do casal, por não aceitar a separação, confessou esta terça-feira o crime, no Tribunal de Aveiro, mas disse que não tinha intenção de a matar.

"O que aconteceu foi um acidente. Não foi nada premeditado. Quando a arma disparou, fiquei em pânico. Pensei que a arma estava travada", disse o arguido, que falava na primeira sessão do julgamento.

O homem, de 40 anos, afirmou ainda que não tinha intenção de fazer mal à ex-companheira e mostrou-se arrependido.

Quanto ao motivo que o levou a efetuar o disparo, limitou-se a dizer que foi um "ato de desespero", adiantando que pouco antes de acontecer este episódio foi acusado de abusar sexualmente de uma filha da ofendida, fruto de um relacionamento anterior.

"Tudo isso mexeu com os meus sentimentos", declarou o arguido, que se encontra em prisão preventiva.

Os factos remontam ao dia 27 de junho de 2015, cerca das 14:00, quando o arguido circulava de automóvel na Estrada Nacional n.º 109, no centro de Ílhavo, imediatamente à frente da viatura conduzida pela ex-companheira, onde seguiam a mãe desta e as duas filhas menores do casal.

A determinada altura, segundo a acusação do Ministério Público (MP), o suspeito parou bruscamente o carro no meio da via e saiu da viatura de arma em punho.

De seguida, aproximou-se do carro da ex-companheira e disparou um tiro na direção da mulher, atingindo-a na face, após o que se colocou em fuga.

Apesar de estar ferida, a mulher conseguiu conduzir a viatura até ao posto local da GNR, tendo sido posteriormente transportada para o Hospital de Aveiro e depois para o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, onde recebeu tratamento médico.

A acusação do MP refere ainda que cerca de um mês antes deste episódio, o arguido atravessou o seu carro à frente do veículo da ofendida e insistiu em falar com aquela, que recusou e trancou as portas.

Além de um crime de homicídio qualificado na forma tentada e outro de detenção de arma proibida, o arguido responde ainda por um crime de violência domestica contra a ex-companheira.

A vítima, que terminou a relação em 2013, depois de cerca de dez anos de vida conjunta, reclama uma indemnização de quase 29 mil euros.

Durante o tempo em que viveram juntos, a ofendida diz que o arguido "sempre se revelou violento", adiantando que, após a separação, passou a persegui-la, insistindo em falar com ela, contra a sua vontade.

Queixa-se ainda que os atos praticados pelo arguido, traduzidos num crescimento de violência e agressividade, vinham causando em si e nas filhas um clima de terror.