O Tribunal de Vila Real começou hoje a julgar um homem pelo crime de usurpação de funções por alegadamente se ter feito passar por médico e prestar assistência durante diversas provas automóveis no distrito.

Guilherme Maia, que não compareceu nesta primeira sessão, terá chefiado a equipa médica que prestou assistência às corridas automóveis de Vila Real e numa prova europeia em Montalegre, entre os anos 2009 e 2010.

Chegou, inclusive, a ser o único médico em funções numa prova de Murça.

O Ministério Pública acusa o arguido do crime de usurpação de funções, já que não possui habilitações para desempenhar a atividade de médico.

A enfermeira Graciete Gonçalves foi a primeira testemunha a ser ouvida no tribunal e referiu que conheceu o suspeito numa formação sobre trauma e emergência. Acrescentou que, por o arguido alegar ter a especialidade maxilofacial, o propôs para integrar a equipa médica que voluntariamente presta assistência ao Circuito Automóvel de Vila Real, coorganizado pelo Clube Automóvel de Vila Real (CAVR).

Terá, segundo a testemunha, colaborado em “pelo menos dez provas” naqueles dois anos, em Vila Real, Montalegre e Murça.

Foi só, de acordo com Graciete Gonçalves, quando dois outros médicos alertaram para uma irregularidade com o número da Ordem dos Médicos de Guilherme Maia, que não correspondia ao nome, que se pediram esclarecimento à Ordem e se despoletou o caso.

A enfermeira considerou que o arguido possui “uma mente brilhante”, que conseguiu “enganar muita gente durante muito tempo” mas que “pôs em causa a segurança dos pacientes”.

António Pureza, responsável pela documentação do Clube Automóvel de Vila Real, referiu que Guilherme Maia comparecia em praticamente todas as reuniões preparatórias para as provas, muitas vezes ainda a vestir a farda do INEM, e que foi designado chefe de equipa por ser muito participativo e mostrar mais disponibilidade.

Disse ainda que, quando pediu ao arguido a sua documentação, ele lhe ditou um número da cédula profissional, que retirou de um cartão com a sua foto e o símbolo da Ordem dos Médicos.

A médica Ana Sofia Jesus trabalhou com o arguido nos eventos, integrando a equipa numa altura em que Guilherme Maia já fazia parte.

Ao tribunal, a testemunha contou que em duas situações não concordou com a atuação do então chefe de equipa, uma relativamente à forma de transportar uma pessoa que assistia à prova, em Montalegre, e se sentiu mal, e outra relacionada com a medicação a administrar a um piloto que teve um acidente e estava com dores.

Outra testemunha, um enfermeiro do Exército que é voluntário na Cruz Vermelha, relatou outra situação em que Guilherme Maia se apresentou como médico, num posto médico avançado em Fátima, só que, na altura, o suspeito alegadamente não atuou como deveria perante duas situações, “devidamente descritas nos manuais”, tendo sido necessário, numa delas, chamar o INEM para prestar assistência à vítima.

O piloto Hugo Castro foi assistido pelo suspeito numa prova em Murça, depois de se ter sentido mal e contou que o “falso médico” verificou a sua condição física, determinou que estava desidratado, pô-lo a soro e depois deu-lhe alta.