Era uma noite de convívio. Várias dezenas de pessoas estavam reunidas no centro recreativo de Vila Nova da Rainha, para um torneio de sueca e para assistir ao jogo entre o Sporting de Braga e o Benfica. A noite devia ter sido de alegria, mas acabou em tragédia: uma explosão seguida de incêndio provocou oito mortos e 38 feridos, 16 deles em estado grave. Três falhas nas instalações e na atuação de quem estava na coletividade na altura, se não tivessem acontecido, podiam ter minimizado ou mesmo evitado a tragédia.

Como é que o fogo se propagou tão depressa? Como foi possível ter morrido tanta gente e tantos terem ficado feridos, sem possibilidade de fuga? O que correu mal afinal, quer no incidente, quer no socorro a estas pessoas? Fernando Curto, presidente da Associação dos Bombeiros Profissionais, esteve no Jornal da Uma da TVI, onde explicou, com recurso a um gráfico feito especificamente para o efeito, o que correu mal e como é que tragédia podia ter sido evitada.

A salamandra em contacto com o teto

De acordo com o presidente da Câmara de Tondela, o edifício tinha uma cobertura de chapa, que “na sua face inferior, foi revestida com poliuretano”. “Por baixo dessa estrutura, existia um teto falso. O que é sabido é que, por força do aquecimento de uma salamandra, terá propagado uma forte ignição no revestimento da chapa, isto é no poliuretano”, explicou José António Jesus, em declarações à TVI, citando “testemunhos de quem lá esteve e alguns dados periciais”.

A questão que se coloca, em primeiro lugar, é saber o isolamento que a Salamandra tem, quando está em atividade, quando está a produzir calor. Esse isolamento e essa fuga tem de estar devidamente isolada em relação ao teto. Não pode estar em contacto com a estrutura do teto, se essa estrutura for combustível”, começa por alertar Fernando Curto.

Ora, o material que compunha o teto falso do primeiro andar da coletividade era muito inflamável e estaria em contacto direto com o ponto de fuga do dispositivo de aquecimento.

A salamandra está num espaço que vem provocar tudo aquilo que foi a eclosão: altas temperaturas, saída de monóxido de carbono e dióxido de carbono… ou seja, tudo o que envolve um espaço que as pessoas querem aconchegado e quentinho.”

“A fuga da salamandra não devia estar em contacto com o teto falso. Devia ter uma proteção que permitisse a sustentabilidade do calor produzido pela própria salamandra”, remata o especialista.

Abrir uma janela ou uma porta

O pânico, a falta de ar ou o excessivo calor que o início da combustão provocou terá levado alguém a abrir uma janela ou uma porta, para arejar o espaço ou mesmo já para tentar a fuga. Esse ato imponderado pode ter alimentado o fogo.

Para nós bombeiros, esse é um procedimento que não se faz. Ou faz-se numa situação sustentada e calculada. As pessoas tem dificuldade em respirar, estão em pânico, é lógico que encaminham-se logo par as escadas, para as portas e para as janelas para as abrir. Há uma renovação grande de oxigénio que permite que o incêndio se propague ainda mais. Alimenta a combustão”, alerta o especialista.

A fuga pelas escadas

No Jornal da Uma, o presidente da Associação de Bombeiros Profissionais alertou ainda para as condições da saída de emergência da coletividade onde ocorreu a tragédia. “Estamos a falar de uma saída de emergência, que tem umas escadas que terminam numa porta que abre para dentro. Essa porta devia abrir para fora para facilitar a saída e a fluidez das pessoas em caso de emergência”

Abrindo para dentro, há toda uma colocação de pessoas ali, vindas em catadupa e em pânico para fugir, pisam-se umas às outras. Acaba por haver aqui uma situação gravíssima, no que diz respeito a uma coletividade e a uma instituição que alberga pessoas e onde as pessoas se juntam para conviver”, sublinha Fernando Curto.

O responsável pelos bombeiros profissionais acrescenta que a situação que ocorreu em Vila Nova da Rainha “não é virgem” e repete-se em muitas coletividades do interior do país. Fernando Curto reclama também maiores poderes para os bombeiros para atuar nestas instituições: “Os bombeiros não têm poder fiscalizador e não têm poder para atuar.”

O autarca de Tondela, José António Jesus, garante que a obra de adaptação do edifício para sede da coletividade tinha sido licenciada. “Esta associação foi constituída em 1979 e, em 1992, instruiu o respetivo processo de licenciamento de adaptação de um edifício existente, no centro da comunidade para ser a sua sede. (…) Esse processo foi, à época, capaz de respeitar as condições de licenciamento existentes”, assegura o presidente da Câmara.

José António Jesus sublinha ainda que qualquer alteração que eventualmente tenha sido feita à obra depois disso não imputa responsabilidades à autarquia:

Se, por ventura, teve alguma alteração interior, as alterações interiores em edifícios desta natureza estão isentas de licenciamento e são da responsabilidade dos seus autores.”