A sida deixou de ser «rapidamente mortal», 30 anos depois do primeiro caso em Portugal, mas continua «devastadora para a vida das pessoas» e enfrenta agora outras ameaças: a internet e os novos consumos de substâncias.

O diagnóstico é traçado por um dos principais investigadores da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (sida) em Portugal, Kamal Mansinho, diretor do Serviço de Infeciologia do Hospital Egas Moniz.

«Há 30 anos, não imaginaríamos que ainda hoje estaríamos a falar desta doença com a preocupação que ela representa para todo o mundo», diz o infeciologista em entrevista à agência Lusa, a propósito dos 30 anos do VIH/sida em Portugal e do Dia Mundial de Luta contra a sida, que se assinala no domingo

Kamal Mansinho adianta que a investigação multidisciplinar permitiu que a sida «deixasse de ser uma doença rapidamente mortal para se transformar numa doença prolongada e controlável».

«Mas o facto de ser uma doença controlada e prolongada, não significa que não seja devastadora para a vida das pessoas que se infetam» e, «em última instância», continua a ser «uma doença incurável e mortal», adverte, salientando que a prevenção continua a ser a «forma mais eficaz» de a combater.

Os tratamentos também «evoluíram muito», o que «modificou completamente o panorama da infeção»: Passou a ser uma doença em que as pessoas, desde que adiram ao tratamento e ao programa de acompanhamento, «conseguem preservar qualidade de vida, ser internados menos vezes, terem menos infeções oportunistas e uma longevidade muito próxima das pessoas não infetadas por VIH».

Esta situação mudou não apenas a vida das pessoas infetadas, mas também a sua perceção de risco.

«Não devemos perder de vista esta questão», porque o facto de a sida ter passado a ser «uma doença crónica, às vezes leva à banalização deste conceito e, no espírito das pessoas, pode prevalecer a ideia de que estamos a falar de uma doença banal sem grandes repercussões, o que não é verdade», frisou.

Para o especialista, as novas infeções, tendo em conta os números mundiais, «continua a ser um motivo de atenção muito particular».

Apesar dos «números serem avassaladores», o número de infeções em todo o mundo diminuiu cerca de 30%.

«O que vimos assistindo paulatinamente é que há alguns grupos mais vulneráveis que se estão a infetar de novo, com maior frequência, comparativamente àquilo que esperaríamos», lamenta.

Entre estes grupos encontra-se a «população mais jovem», os homens que praticam sexo com homens e os «consumidores de drogas e não apenas por via injetável».

Kamal Mansinho alerta para as novas formas de consumo de substâncias, que são estimulantes e podem levar as pessoas a adotarem «determinados comportamentos sexuais de risco».

Para o especialista, esta é uma situação «preocupante» e exige novas respostas: «Nós mudámos, o mundo mudou, o contexto em que vivemos mudou e, portanto, precisamos de inovar não apenas no conteúdo das mensagens, mas também na leitura que temos de fazer enquanto técnicos sobre os resultados dessas mesmas mensagens».

A internet também passou a ser «mais um instrumento que pode propiciar a propagação da infeção». «É cada vez mais importante encontrar mensagens adequadas» ao mundo da internet e da comunicação instantânea para conseguir chegar às pessoas, alerta o investigador.

«Não chega hoje transmitir às pessoas que o preservativo é uma entre as várias medidas eficazes na diminuição do risco de transmissão da infeção por VIH, é preciso também procurar saber as razões pelas quais as pessoas, tendo este conhecimento e, às vezes, tendo o preservativo consigo, no momento em que precisam de o utilizar, não o fazem», explicou.