O céu está fechado por uma nuvem de fumo gigante como o Adamastor,  ao fundo as labaredas crepitam a caruma dos pinheiros, acabando por os engolir. A temperatura está acima dos 30 graus e o vento sopra a 30 quilómetros por hora. As chamas avançam. A linha do fogo faz-se ameaçar e da torre do quartel de Bombeiros de Vieira de Leiria, às 17:00, a hora em que a fotografia foi tirada, a imagem é de um inferno a chegar a toda a velocidade.

Hélio Madeiras, bombeiro há 19 anos e desde 2005 também da Unidade Especial Canarinhos, é o autor da fotografia que podia ilustrar o Inferno de Dante ou, então, o inferno deste domingo, em que ele e os seus colegas bombeiros não conseguiram evitar que o fogo chegasse à linha das casas de Vieira de Leiria, consumindo-as. “Algumas habitações pertenciam a bombeiros” daquela corporação, que não as conseguiram salvar.

Em pleno mês de outubro, as chamas voltaram a fazer mortos, feridos e a consumir habitações do centro ao litoral e norte do país. “O incêndio tomou um comportamento eruptivo”, explicou Hélio Madeira à TVI24. À hora desta conversa, já depois da 1:00 da madrugada, dia do seu 36º aniversário, todo o trabalho dos bombeiros não tinha conseguido evitar a evolução das chamas.

“Recebemos o alerta pelas 15:00 horas para um incêndio em Pataias, que ganhou intensidade e entrou no pinhal nacional que não ardia desde 2003. Mobilizamos todos os meios humanos e viaturas para a proteção a Vieira de Leiria e Praia de Vieira. Por volta das 18:00, tive de abandonar esse incêndio para ingressar no grupo de ataque ampliado da Força Especial de Bombeiros. Neste momento, encontro-me nos incêndios mais a norte, numa bomba de serviço da A25, perto de Vouzela”. E daí também não havia se não fumo e fogo pela noite fora.

A foto do incêndio de Vieira de Leiria que Hélio Madeira publicou no Facebook teve milhares de interações e tornou-se numa das imagens mais partilhadas nas redes sociais neste dia muito chamuscado pelo fogo. Assustou muita gente que quis comentar a imagem e também partilhá-la. Enquanto metade do país arde no pior dia de incêndios deste ano, a outra metade fica acordada à procura de notícias dos seus familiares e das terras onde alguém não lhes atende o telefone porque as comunicações têm falhas. A fotografia comunica o desespero, a solidariedade e também o medo.

Não é tempo de incêndios, mas para um bombeiro, o fogo pode aparecer mesmo num fim de semana de outono, por acaso dia de aniversário.

VEJA AQUI: a cobertura deste domingo de incêndios na TVI24