A inoperacionalidade de uma Viatura Médica de Emergência e Reanimação (VMER) em Évora, por alegada doença do médico, no domingo à noite, para assistência a um acidente em Reguengos de Monsaraz, do qual resultariam dois mortos, «não é justificável» para o bastonário da Ordem dos Médicos.

Inspeção Geral das Atividades em Saúde (IGAS)abriu um processo de averiguações «sobre a inoperacionalidade das VMER», anunciou esta terça-feira o Ministério da Saúde.

Em declarações na TVI24, nesta terça-feira, José Manuel Silva apontou o dedo ao ministro da Saúde e ao hospital alentejano, adiantando que já pediu à Inspeção-Geral das Atividades em Saúde (IGAS) para investigar a situação da inoperacionalidade das VMER não só em Évora, como em todo o país.

«Em situações limite, uma doença súbita pode tornar impossível substituir um profissional de imediato, mas, como verificamos, continua a haver períodos de inoperacionalidade da viatura de Évora pela mesma razão», considerou o bastonário.

VMER de Évora novamente parada

«O que significa que o que há é falta de contratação de profissionais, não é falta de profissionais, é falta de contratação. O ministro da Saúde falou em redundância de meios, mas não há redundância nenhuma porque os meios não se substituem uns aos outros, complementam-se. Uma ambulância de bombeiros, uma viatura SIV [suporte imediato de vida] não faz a mesma coisa que uma viatura médica, não tem os mesmos recursos e não tem as mesmas competências, portanto, isto é enganar a população, fazê-la crer que há redundância de meios, que se falta um médico não há problema nenhum porque vai um bombeiro. O ministro da Saúde tem de ter mais cuidado com as suas afirmações», lamentou.

José Manuel Silva afirmou que as VMER foram «impostas» aos hospitais, que ficaram com mais uma despesa em mãos em período de grandes dificuldades. E o problema não é, para o bastonário, a falta de médicos, mas a incapacidade de realizar «contratos justos» com aqueles profissionais.

«As VMER foram impostas aos hospitais e os hospitais foram obrigados a assumir uma despesa para a qual não tiveram orçamentação própria. Isso faz com que, de facto, os hospitais enfrentem dificuldades, não só nas VMER como no próprio funcionamento dos hospitais. Não há uma tabela nacional para pagar aos profissionais das VMER. Cada hospital paga o que quer ou o que consegue e isso não é possível. Têm procurado esmagar os preços ao ponto de isso desinteressar aos profissionais», contou.

E exemplificou. «O hospital de Gaia ofereceu aos médicos das VMER 12 euros/hora e aos enfermeiros 7 euros/hora, o que significa que, depois dos impostos, que levam 50 por cento, um enfermeiro estaria a ganhar 3,5 euros e um médico seis. O que significa que não paga aquele serviço, que não paga o risco, porque há profissionais das VMER que já estiveram a morrer em acidentes. É uma missão de elevadíssimo risco de vida, de alta complexidade técnica, que exige de facto uma preparação específica e nem todos os profissionais têm personalidade para trabalhar numa VMER. Porque podem ser confrontados com tudo, desde uma criança a morrer, a um parto, a um poli-traumatizado, a um enfarte do miocárdio e isso tem de ser justamente reconhecido, não é milionariamente reconhecido, é justamente.»

Para o bastonário, a situação «é particularmente perversa», porque «se a viatura médica está inoperacional, o hospital está a poupar dinheiro». Ou seja, no seu entender, «não há interesse efetivo do hospital em que a VMER esteja 100% operacional».

Por tudo isto, a Ordem dos Médicos pediu à IGAS «que fizesse não só uma inspeção à VMER de Évora, mas a todo o sistema de emergência médica do país para analisar o porquê das viaturas estarem inoperacionais».