Sentadas junto à Capela da Boa Morte, nas Caxinas, Maria e Laurentina fazem contas às vidas dos pescadores da terra levadas pelo mar enquanto esperam pela chegada dos corpos das Astúrias, tentando fintar a emoção de nova tragédia.

«Houve aí uma semana, que me lembre, que foram uns sete ou oito. O padre fazia funerais atrás de funerais, todos os dias», recorda, com ar natural, à Agência Lusa, Maria das Dores, de 58 anos, ela própria viúva de pescador das Caxinas, em Vila do Conde.

Monsenhor Domingos Araújo, pároco de Caxinas «há 38 anos», disse à TVI que, «pelas suas contas, já fez o funeral a 92» homens mortos no mar»

Contas feitas, em terra onde todos se conhecem, chegam à conclusão que apenas no último mês as Caxinas viram partir quatro pescadores em dois acidentes no mar, mas outros estão ainda desaparecidos.

«E chega. Já viu a vida deles, a nossa vida», desabafa, por entre um suspiro de desalento, Maria das Dores.

Ainda assim resiste a soltar qualquer lágrima, até por força do hábito e de um luto contínuo na maior comunidade piscatória do norte de Portugal.

«A vida continua. Eles têm de trabalhar, a maioria, os que se salvam, volta logo ao mar. É a vida de pescador», atira, de ar conformado.

Os corpos dos pescadores José Esteves e de António Cascão, que morreram no naufrágio do arrastão «Mar Nosso», em Espanha, foram trasladados neste domingo de manhã de Gijón (Espanha) para Vila do Conde.

Os corpos dos três pescadores portugueses que morreram no naufrágio do arrastão «Mar Nosso» na costa das Astúrias, Espanha, chegaram pelas 18:00 deste sábado a Vila do Conde e os funerais estão agendados para domingo e segunda-feira.

Os três corpos foram recebidos com lágrimas por dezenas de familiares dos pescadores, nomeadamente na zona das Caxinas, depois de uma viagem de quase sete horas desde Gijón, nas Astúrias.

De acordo com fonte da Junta de Freguesia de Vila do Conde, os funerais de José Esteves e de António Cascão estão agendados para as 15:00 de segunda-feira, na igreja do Senhor dos Navegantes, nas Caxinas.

Pelas 10:00 de domingo, também em Vila do Conde mas na Igreja de São Francisco, realiza-se o funeral de Américo dos Santos, indicou a mesma fonte.

Salvou-se uma vez, desta não

«Veja bem que ele [António Cascão] salvou-se de um naufrágio há pouco tempo. Não foi na altura, morreu agora. É a nossa sina», conta Maria da Agonia, ao fim de três horas de espera pelos corpos dos dois «caxineiros».

«Estamos aqui uns pelos outros. Eu só quero ver o corpo, se está direitinho. E os outros, que estão desaparecidos, que apareçam também, para a família ter sossego», diz ainda.

As buscas para encontrar os dois pescadores portugueses daquele arrastão ainda desaparecidos continuam em Espanha.

O arrastão «Mar Nosso» naufragou na quinta-feira, ao largo das Astúrias.A bordo do «Mar Nosso», de bandeira portuguesa e propriedade de um armador de Marín, na Galiza, estavam 12 tripulantes, dos quais sete portugueses - a maioria das Caxinas - e cinco espanhóis.

Sete marinheiros foram resgatados com vida (todos os espanhóis, da Galiza, e dois portugueses).

As buscas para encontrar os dois pescadores portugueses ainda desaparecidos continuam.