Os manifestantes que aderiram ao protesto convocado pela CGTP demoraram mais de uma hora a passar a Ponte do Infante, numa marcha que culminou numa concentração bem preenchida na avenida dos Aliados, no centro do Porto.

No final da manifestação convocada pela central sindical, contra a exploração e o empobrecimento, João Torres, coordenador da União dos Sindicatos do Porto, ainda antes de falar com os jornalistas, agarrou-se ao telefone, para encontrar, do outro lado, Arménio Carlos, secretário-geral da CGTP: «Aqui correu bem, e aí? Choveu? É para se habituarem, aqui não, mas também aqui reza-se mais...»

A chuva não perturbou os manifestantes no Porto, vindos um pouco de todo o norte do país, que, ao contrário do que se passou em Lisboa, puderam efetuar a pé o percurso programado, com concentração na base da Serra do Pilar, fazendo a travessia da Ponte do Infante e o percurso pelo centro da cidade, até à avenida dos Aliados.

No tabuleiro da ponte, Marisa Ribeiro, de megafone em punho, ia marcando a marcha compassada, ao som das palavras de ordem, que ocupavam toda uma folha A4, e que iam de «Portas, Coelho e Cavaco são farinha do mesmo saco» até ao habitual «CGTP - Unidade sindical».

Para o microfone da Lusa, a manifestante afirmou que estava a «ser uma excelente jornada de luta, bem precisa para os tempos e imposições do Governo». «São cada vez mais os princípios de Abril que nos querem roubar mas nós não vamos deixar».

Um pouco à frente, com uma pequenina bandeira nacional, «com muitos, muitos anos», Ana Maria confessava que era a primeira vez que participava numa manifestação. «Felizmente trabalhava, mas, infelizmente, estou agora em casa a tomar conta do meu marido. Tenho um filho com 37 anos desempregado há mais de quatro anos, e não é considerado agregado, para nos roubarem», disse à Lusa, de um fôlego.

Na marcha, o vermelho da Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses - Intersindical Nacional (CGTP-IN) predominava, mas havia uma profusão de cores trazidas pelas bandeiras e cartazes de diversos sindicatos, que iam dos Trabalhadores da Administração Local, aos Bancários, da Hotelaria, aos Jornalistas.

Também havia cartazes improvisados com as caras dos membros do Governo, outros estampados com o Che Guevara e notas de humor como a de Carlos Silvano, que desfilava trazendo pela mão um suporte onde dois «frascos de soro» lhe administravam bacalhau e frango. «Isto não é doença é o meu almoço hoje, já não tenho mais».

Trazia uma boina «de operário», as «botinhas de quem serviu o país e não tem nada», representativas de gente que «devia levar alguma coisa», ao contrário de «quem andou a servir o país por interesses e não devia ter nada», adiantou.

Nos Aliados, o discurso coube a João Torres, que não poupou as críticas à proposta de Lei do Orçamento do Estado para 2014, na defesa da Constituição e no ataque ao Governo.

Em declarações, no final, o coordenador da União dos Sindicatos do Porto considerou que tinha sido «uma manifestação excecional», demonstrativa da «capacidade de organização» da central sindical e que reforçou a «responsabilidade da continuação da luta».

«Vamos ter de insistir, porque o país não tem futuro com este tipo de governo», afirmou João Torres, acrescentando que «o Orçamento do Estado vem dar mais força à luta, porque é juntar mais veneno ao veneno que têm distribuído pelos trabalhadores pelos reformados e pelos jovens».