O cardeal José Policarpo afirmou este domingo em Setúbal que Portugal só tem dinheiro para mês e meio em caso de incumprimento das metas estabelecidas no pedido de resgate e acusou a oposição de não apresentar soluções.

«Parece que ninguém sabe que Portugal está numa crise e dá a ideia que todos reagem como se o estado pudesse satisfazer as suas reivindicações», disse o patriarca emérito de Lisboa, mostrando-se convicto de que o governo não tem condições para satisfazer as reivindicações dos sindicatos e partidos da oposição.

«Não encontrei ninguém das oposições - todas elas - que apresentasse soluções. E se falhasse este mecanismo da economia liberal [apoio financeiro no âmbito do pedido de resgate], Portugal só teria dinheiro para mês e meio», frisou, acrescentando que, nesse cenário, «não haveria dinheiro para pagar salários e pensões», cita a Lusa.

O cardeal José Policarpo falava a cerca de duas centenas de pessoas na Conferência «Caridade é a fé em ação», promovida pelo Secretariado da Ação Social e Caritativa da Diocese de Setúbal, integrada nas celebrações do Ano da Fé.

«Se todos pusessem em primeiro lugar o bem comum e fizessem qualquer coisa que ajudasse a resolver o problema, estou convencido de que isto nos custava metade do preço e do sofrimento», disse, acrescentando que estamos todos a pagar os erros cometidos com a especulação financeira em prejuízo das economias ocidentais.

Também o presidente da Cáritas, Eugénio Fonseca, falou sobre a situação de portugal e considerou que a situação atual do país resulta, em grande parte, da forma como foi conduzida a política portuguesa durante anos, em que se governou «para clientelas e grupos corporativos fortes».

Segundo Eugénio Fonseca, «muitas vezes se governou para clientelas, para grupos corporativos fortes, que foram altamente favorecidos, beneficiados. Basta ver que até o Orçamento de Estado que está apara aprovar tem cortes preconizados para determinadas classes, mas dispensa outras que estão no mesmo regime da Função Pública. Isto é inadmissível».

«O que nos falta a todos é esse sentido do bem comum. Se assim fosse, talvez alguns quisessem renunciar às duplas reformas que têm, talvez aceitassem baixar agora os lautos rendimentos que têm», frisou o presidente da Cáritas, depois de assistir à conferência do cardeal José Policarpo, «Caridade é a fé em ação», em Setúbal.

Questionado pela Lusa, Eugénio Fonseca refutou a ideia de que os cortes nos rendimentos mais elevados, por abrangerem um universo muito mais reduzido, possam ser irrelevantes para o Orçamento de Estado.

«Gota a gota se fazem os oceanos. Isso é uma falsa questão. Não percebo como é que as `migalhas¿ do RSI (Rendimento Social de Inserção) foram consideradas tão importantes, ao mesmo tempo que se considera que as `migalhas¿ dos mais ricos não são tão significativas», argumentou.

Eugénio Fonseca sublinha que Portugal está «num período em que falta o dinheiro».

«Não sei é se temos feito bem a geografia financeira para ir buscar o dinheiro onde ele está de facto e, sobretudo, para o ir buscar onde ele foi colocado indevidamente», acrescentou.