As famílias das vítimas da tragédia do Meco acusam o procurador que dirigiu a investigação e arquivou o processo de omitir informação relevante.

É o caso do relatório do Instituto de Medicina Legal, colocado num apenso e sem referência no despacho de arquivamento, que admite que uma das vítimas poderia estar com a capacidade de reação intelectual e motora afetada na noite fatal.

O relatório detalha os resultados dos exames toxicológicos a Tiago Campos, a quem tinha sido detetado o consumo de cannabis e álcool. O IML admite então que a vítima podia estar com capacidade de reação intelectual e motora afetada na noite tragédia.

«É de admitir um certo grau de perturbação de coordenação motora, das funções cognitivas e afetivas, com interferência na capacidade intelectual e de decisão da vítima mormente em sede de avaliação de risco para a sua integridade física ou vida, tendo em conta a hipotética situação de aproximação à linha de água na praia do Meco na noite de 15 de dezembro de 2013», diz o relatório.

«Isso vem precisamente colocar às claras como é que os jovens estavam, claramente com a capacidade de reação diminuída, por causa de uma série de circunstâncias decorrentes da praxe. Eles não estavam com as capacidades diminuídas porque lhes apeteceu, estavam assim porque vinham de quase 24 horas seguidas de atividades praxistas. Isso foi omitido, estranhamente, mas mais estranho é que essa informação foi colocada em apenso, ou seja, houve o cuidado de deixar alguma informação fora dos volumes principais. É mais um dos exemplos de que este processo merecerá ser publicamente analisado, de uma ponta a outra, e que a própria PGR deverá ver o que se passou com este processo», disse o advogado das famílias das vítimas, Vítor Parente.

Segundo as famílias, há informações relevantes que não foram divulgadas que contrariam a tese de acidente.

«Eu continuo sempre na minha teoria desde o princípio: que eles estavam de costas para o mar. A opinião pública não sabe metade desta história que se passa aqui, há coisas aqui diabólicas. Está mais que provado que foi um fim de semana de praxe e que eles estavam a ser praxados naquele momento», afirmou José Campos, pai de Tiago Campos.

A TVI teve acesso a um documento que não foi disponibilizado às famílias e que contém todas as mensagens enviadas e recebidas por Andreia Revez, antes e durante o fim de semana no Meco.

Uma semana antes, a 6 de dezembro, Andreia envia este SMS, referindo-se a uma atividade de praxe: «Tive que cancelar a actividade. Aconteceu uma cena muito grave. Uma pastrana "desmaiou", até ligámos para o 112».

Já durante o fim de semana da tragédia, meia hora depois de chegar à casa que os estudantes alugaram, Andreia escreveu: «Já estou bêbada!». As mensagens ao longo da noite foram: «Isto está péssimo migo», «Pussy, isto está horrível», «Estou tão mal», «Isto está tão mau puto».

«Eu procuro, há mais de 30 dias, consultar este processo e ainda não consegui. Por que se nega aos pais a análise dos telemóveis que são dos filhos? Porque isso irá permitir desmontar completamente a teoria de que foi um mero acidente», denunciou o advogado.

«Até queria acreditar na justiça portuguesa. Faço um apelo à PGR para que fale o mais rápido possível com o Ministério Público de Almada, para que nos dê a possibilidade de ver o resto do processo, para que a gente dê resposta ao que se passou no Meco», concluiu o pai de Tiago Campos.

A TVI continua a tentar ouvir o procurador do processo, até agora de forma infrutífera.

Entretanto, e por solicitação da TVI, a Procuradoria-Geral da República emitiu um comunicado que repete os termos da lei: «Qualquer cidadão poderá levar ao conhecimento dos órgãos hierárquicos do Ministério Público factos que entenda ser passíveis de apreciação».